Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Lembranças cor-de-rosa (Woody Allen x facebook)

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Por esses dias tenho visto no facebook uma mensagem exaltando a infância do “tempo em que eu era criança”, quando não existiam videogames, PCs e “a gente brincava na rua”. Depois falam que eu sou do contra, mas não dá para concordar com essa história.

A mania de achar que antigamente era melhor tem até nome, “rosy retrospection”, ou, numa tradução livre, lembrança cor-de-rosa: é a tendência que temos de avaliar as experiências passadas de forma exageradamente positiva. Até onde sei o termo foi cunhado num estudo seminal de 1997, no qual os pesquisadores fizeram o seguinte: distribuíram questionários para 21 americanos que iam viajar para Europa, para 77 estudantes que iriam ter uma semana de férias e para 28 colegas que iriam viajar de bicicleta pela Califórnia. Os sujeitos respondiam perguntas sobre seus sentimentos em três momentos: antes, durante e depois do passeio. Embora os métodos variassem um pouco, em todos o resultado foi o mesmo: as pessoas achavam que ia ser melhor do que acabava sendo de fato, confirmando o ditado de que o melhor da festa é esperar por ela. Mas quando perguntadas como a experiência tinha sido poucos dias depois, as pessoas também davam notas de satisfação maiores do que tinham dado na ocasião dos eventos. Esquecendo-se rapidamente de pequenas distrações e frustrações que na hora roubavam um pouco da satisfação, guardavam mais as lembranças cor-de-rosa.

É como no mais recente filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris. O escritor Gil (Owen Wilson, interpretando com maestria o papel “Woody”) acha que os “anos dourados” de Paris tinham sido os anos 20. Num passe de mágica ele vai parar lá, e descobre que as pessoas da época achavam que a “idade de ouro” terminara mesmo foi com a virada do século. Só que quem vivia esse período imaginava que a Renascença é que tinha sido boa. Gil vê que as pessoas sempre acham sua época meio insatisfatória, mas que isso não é culpa da época, “a vida é um pouco insatisfatória”, conclui.

Por isso que não concordo com a campanha no facebook. Como diz o personagem do Woody Allen, o passado pode até ter sido bom, mas pelo menos hoje nós temos antibióticos.

ResearchBlogging.org Mitchell TR, Thompson L, Peterson E, & Cronk R (1997). Temporal Adjustments in the Evaluation of Events: The “Rosy View” Journal of experimental social psychology, 33 (4), 421-48 PMID: 9247371

Written by Daniel M Barros

28/06/2011 às 4:06 PM

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