Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Pare e não compare

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Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
(…)
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
(…)

Para os que não reconheceram, tratam-se de trechos do “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

Andei conversando sobre isso com pessoas muito perspicazes, e de fato parece que com o advento das redes sociais essa busca por aparentar uma felicidade total, embora antiga, tem sido potencializada.

Alguns estudos muito interessantes apontam para a origem do fenômeno em nossa tendência a querer sempre “o melhor possível” em vez do “bom o suficiente”. Estimulados (e também cobrados) que somos para não nos contentarmos senão com o melhor dos melhores e não aceitar nada abaixo da excelência absoluta, acabamos por sofrer pelos menos duas consequências perversas: em primeiro lugar, estamos constantemente frustrados, já que nem sempre (ou raramente, para ser honesto), conseguimos chegar a tais píncaros em qualquer coisa que seja; e em segundo, como não existem parâmetros objetivos para “o melhor possível” em quase nada, tendemos a nos comparar com os outros para ver se estamos melhor ou pior do que eles. E nessa insana competição para estar melhor podemos distorcer a realidade, incapazes de enxergar e lidar com nossas inevitáveis mazelas.

É por isso que o facebook fala muito sobre as baladas maravilhosas e nada sobre os sábados solitários, mostrando sempre fotos felizes e nunca as agruras da vida. Isso já gerou até um novo termo, “FOMO” (fear of missing out), para traduzir a ansiedade que essa vitrine maquiada gera nos que embarcam na roda vida de comparações sem fim.

Mas existe uma solução: os mesmos estudos mostram que as pessoas que têm mais tendência para buscar “o melhor possível” são mais insatisfeitas e mais competitivas do que as que se contentam com o “bom o suficiente”. Não se trata de ter expectativas medíocres, mas de estabelecer padrões para si – altos ou não – que não dependam dos outros.

Quando descobrimos o que nos satisfaz ficamos felizes em alcançá-lo. E basta.

ResearchBlogging.org Schwartz B, Ward A, Monterosso J, Lyubomirsky S, White K, & Lehman DR (2002). Maximizing versus satisficing: happiness is a matter of choice. Journal of personality and social psychology, 83 (5), 1178-97 PMID: 12416921

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Written by Daniel M Barros

01/06/2011 às 7:08 PM

11 Respostas

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  1. Daniel,
    esse hábito de fazer comparações descabidas de realidade (afinal, a realidade sempre tem dois lados) parece algo que se aprende sem ter sido ensinado. Uma verdade tão absoluta que não faz sentido alguém contestar. E é exatamente aí que mora o problema: acreditar, sem refletir, no que dizem estas comparações. Escrever posts como o seu é uma maneira muito útil de humanizar e de colocar um ponto de interrogação no seu devido lugar: no meio destas distorções que são levadas ao pé da letra e provocam tantos desastres na vida das pessoas.

    Gosto muito do jeito que você escreve e dos conteúdos também. Parabéns! Até o próximo post.

    Ana Kley

    01/06/2011 at 9:36 PM

  2. é a constante busca por algo que não existe. sempre vivemos com a cabeça em um mundo idealizado, imposto peos mais diversos fatores, sociais, familiares, virtuais, até mesmo artisticos, quantos filmes, livros, musicas não nos expoe a um mundo artificial, onde tudo é perfeito!
    a consequencia disso é essa ansiedade, talvez nem patologica, mas que afeta a todos sem exceção, uns mais, outros menos. mesmo os mais conscientes dessa distorcão por vezes se enchergam em qualquer outro lugar menos aqui. é dificil ser aqui…

    a tempos venho acompanhando o blog, meu primeiro comentario.
    sou estudante de medicina, também quero ser psiquiatra

    romeu

    02/06/2011 at 1:49 PM

  3. Difícil é achar um meio termo, porque ambição nenhuma também não pode ser saudável…
    Gostei muito do post, vou começar a acompanhar o blog! Parabéns!

    Tata

    02/06/2011 at 8:49 PM

  4. O ano passado assistindo ao programa da Oprah, com a a autora de Harry Porter, fiquei muito inquieta.
    JK Rowling, falava da cobrança dela escrever mais um sucesso, um sucesso maior do que Harry Porter e ela não quer fazer mais nada. E as duas citam Michael Jackson e sua eterna procura em superar-se.
    Essa entrevista me marcou muito, pessoas reconhecidamente top em sucesso, que chegaram lá, e mesmo assim continuam sendo cobradas de irem além, imagina então eu, uma simples mortal.
    E você traduziu minha inquietação: contentar-se com ” bom o suficiente”.
    se interessar: http://www.youtube.com/watch?v=_1_ALsQsKoQ&feature=related

    Obrigada.

    Ção

    02/06/2011 at 11:17 PM

    • Obrigado. O post não está perfeito, mas acho que ficou bom o suficiente…

      Daniel M Barros

      03/06/2011 at 1:03 AM

  5. ADOREI.

    Tatiane

    07/06/2011 at 3:48 PM

  6. Post excelente, como sempre!

    Não tinha lido esse texto, mas essa semana, pelo twitter, abordei esse tema por um outro viés: o das aparências. Há uma cobrança permanente de se estar bem, satisfeito e feliz. Precisamos mostrar a todos que estamos no auge, que somos inatingíveis, ainda que a realidade seja completamente diferente. A nossa contemporaneidade não permite que admitamos vulnerabilidades, e as redes sociais evidenciam bem isso.

    Paula Soares

    16/06/2011 at 5:39 PM


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