Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Cidade da higiene – metrôs e persistência histórica

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[tweetmeme] Entro com atraso no assunto quente da semana passada: a movimentação dos moradores de Higienópolis contra a construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica. Atrasado mas não intruso, já que, acreditem, esse fenômeno tem muito a ver com a medicina.

O bairro de Higienópolis teve sua origem nas chácaras da classe alta do final do século XIX na região chamada então de Alto Pacaembu. Estas eram propriedades da aristocracia paulistana, e já na época tentavam ser auto-suficientes, mesclando o conforto da cidade com a produção de seus alimentos, fontes de água próprias etc. Com o enriquecimento advindo do ciclo do café e posterior industrialização as chácaras foram loteadas e vendidas para as famílias ricas, tendo como argumento de venda não só a exclusividade do local, mas também um aspecto médico que fazia muito sucesso na época – a higiene.

Com a revolução industrial surgiu uma massa urbana que era vista como propensa a vícios, jogos, bebida e marginalidade. Na mesma época o positivismo científico, notadamente o positivismo médico, dominava o pensamento urbanista, e se propunha a intervir sobre a organização da cidade para curá-la de sua doença social e livrá-la do perigo que o proletariado representava. Aglomerações, ar contaminado, pobreza, eram todos elementos associados à falta de higiene e consequente criminalidade. Os indivíduos careciam de ajuste, e os médicos se propunham então a identificar os perigos e extirpá-los da cidade.

É sobre esse pano de fundo histórico, utilizando estes argumentos médicos, que os alemãs Martinho Burchard e Victor Northmann ofereciamm seus terrenos “exclusivos”: além do esgoto tratado e ar puro dada a altitude, o bairro estava longe das multidões e era de difícil acesso ao povo; um bairro higiênico, enfim. Daí seu nome, Higienópolis, literalmente “cidade da higiene”.

Diante de tudo isso, a mim parece que a recusa da população do bairro em receber o metrô é um caso do que os estudiosos chamam “persistência histórica” – o espírito dos moradores ainda carrega algo desse desejo por exclusividade que quer manter longe as “pessoas diferenciadas”, considerando-as fonte de problemas e perturbação da higiene local.

Felizmente a sociedade reagiu a tudo isso com bom-humor, confirmando a seu modo a famosa frase de Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

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Written by Daniel M Barros

18/05/2011 às 2:47 PM

Uma resposta

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  1. Oi, Daniel, há algum tempo que eu não passava por aqui – gostei das informações sobre a origem do bairro. Acredito mesmo que o mais saudável – e por que não, “chic” – seria morarmos em fazendas ou sítios, isolados uns dos outro por alguns quilômetros… Mas como não é possível, penso que o melhor é tornar a convivência mais agradável – a cidade tem que ser boa para todos, e não apenas para os mais favorecidos. Não adianta morar num lindo condomínio, sair à rua em carro blindado e se deparar com pessoas miseráveis e maltratadas… E, uma dúvida: quem não quer metrô por perto, porque se sujeita ao aperto de um shopping no domingo à tarde? Mistérios…

    monica

    03/06/2011 at 5:08 PM


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