Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Você, que acha que está doente

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Tenho percebido algo muito interessante nas aulas e palestras que ministro: como as doenças podem ser grosseiramente definidas como variações prejudiciais de funções normais do organismo (por exemplo, hipertensão é uma variação para mais da pressão arterial; diarreia é uma aceleração do trânsito intestinal normal e assim por diante), muitas pessoas começam a achar que têm um diagnóstico psiquiátrico quando aprendem sobre os sintomas. Funciona assim: ouvem que depressão tem sintomas como tristeza constante, perda de ânimo e energia, alterações de apetite e sono e logo pensam “Meu Deus, acho que tenho depressão!”. Ou então, ao saber que pacientes com déficit de atenção têm dificuldade de se concentrar, não lembram das coisas, procrastinam atividades, formam a opinião: “Já sei, eu sofro de déficit de atenção!”. Mas o interessente é quando descrevemos as características da psicopatia todo mundo pensa a mesma coisa: “Descobri! Fulano de tal é um psicopata!”. Nesse caso nunca é a própria pessoa.

Tudo isso para retomar o post da semana passada, sobre os acumuladores. Em maior ou menor grau, todo mundo tem um certo de receio de se desfazer de coisas que podem, posteriormente, dar falta. Vai que eu jogo fora e depois preciso? Não precisei nos últimos cinco anos, mas vai que preciso bem agora?

Por conta desse aspecto de ansiedade com “poder precisar de algo” levando à compulsão pelo acúmulo, o hoarding é geralmente enquadrado dentro dos transtornos da ansiedade, assim como o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Existem diferenças entre eles, sendo destacadas no primeiro seis características comuns: indecisão, perfeccionismo, procrastinação, comportamentos evitativos e dificuldade em organizar tarefas. Mas antes que alguém pense: “Ai, ai, acho que tenho isso”, vão aí seis dicas para não entrar na neurose do acúmulo:

1 – Tome decisões imediatas: no que se refere a jornais, revistas e cartas, decida no dia em que os recebe jogar fora os que você não quer de fato – nunca deixe essa decisão para mais tarde.
2 – Pense duas vezes sobre as coisas que você adquire: antes de comprar/adquirir algo que você acha que quer, espere uns dias e não compre por impulso. E tente sempre descartar algo para abrir espaço para o novo.
3 – Reserve 15 minutos por dia para “dar uma geral”: em inglês, há o termo declutter, que justamente fazer uma “catança” – comece com a escrivaninha, depois um cômodo, e aos poucos vá ampliando.
4 – Descarte o que não tiver usado no último ano: de roupas a objetos, passando por revistas e eletrodomésticos quebrados. Se algum dia precisar desse tipo de coisa (o que está parecendo improvável), é fácil repor.
5 – Só toque uma vez: quando estiver organizando, pegue algo e decida na hora o que fazer – seja jogar fora ou arquivar corretamente, mas não fique passando de uma pilha para outra.
6 – Peça ajuda se precisar: se não puder seguir essas regras sozinho, e as coisas começarem a se tornar um estorvo, talvez seja hora de buscar um profissional e eventualmente usar medicamentos.

Ah, e lembre-se de limpar também sua caixa de e-mails.

ResearchBlogging.org Frost RO (2010). Treatment of hoarding. Expert review of neurotherapeutics, 10 (2), 251-61 PMID: 20136381

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Written by Daniel M Barros

06/04/2011 às 5:50 PM

Publicado em Uncategorized

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6 Respostas

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  1. Durante a faculdade participei de um congresso (se não me engano foi no InFormAção – I Congresso Paranaense de Psicologia, 2004) onde vi uma palestra sobre Burn Out, ministrada por uma professora da UEM, em que eles faziam uma análise da maior incidência de suicídios no 4 ano de medicina e no 3 ano de psicologia.

    No caso da medicina a hipótese girava em torno de coisas como assédio moral, excesso de trabalho e afins.

    No caso da psicologia a justificativa para o maior índice de suicídios era o estudo das psicopatologias justamente neste ano.

    Se a hipótese deles for verdadeira (o me parece pouco provável) o estudo das psicopatologias deve estar matando mais que as próprias psicopatologias em si…

    E, claro, atire a primeira pedra quem nunca, ao ler uma descrição no DSM, disse: eu acho que eu tenho isso… rs

    Um abraço

    _Maga

    06/04/2011 at 9:14 PM

    • Sabe que com alcoolismo acontece o mesmo que com a psicopatia? O problema é sempre de um conhecido…

      Daniel M Barros

      06/04/2011 at 11:37 PM

  2. Nossa, que alívio! Desse mal, eu não tenho! Volta e meia faço os “clean ups” da caixa de entrada, do guarda roupa, dos papeis, das canetas sem tampas… das calças jeans favoritas que não servem mais! Na última geral do guarda roupa eu fui tão radical, que ainda outro dia estava arrependida de não ter mais uma blusa verde para ir no Saint Patrick’s day. Acabei pedindo uma emprestada para uma amiga, que ficou com boa parte das generosas doações! rsrs O oposto também pode ser patológico? Devo me preocupar? rsrs

    Patrícia Ribeiro

    06/04/2011 at 10:56 PM

    • Minha esposa também sofre desse mal oposto. Mas até agora não me preocupa (enquanto não chegar a meus livros está tudo bem…).

      Daniel M Barros

      06/04/2011 at 11:36 PM

  3. Excelente artigo, parabéns. Bom saber que eu me enquadro em boa parte das 6 regrinhas. Abraço

    José Roberto Siqueira

    11/04/2011 at 10:57 AM

  4. […] hoarders’ decision-makingThings You Should Know About Compulsive HoardingCompulsive HoardingVocê, que acha que está doente jQuery(document).ready(function() { jQuery('#feature .feat_box:first-child').addClass('first'); […]


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