Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O preço do prazer

with 4 comments

Já deixei claro por aqui que o tanto de coisas das quais eu não tenho a menor noção é enorme. Posso dizer como Millôr Fernandes:

“Há os que não sabem antropologia
e os que ignoram trigonometria.
Mas só de mim ninguém pode falar nada:
minha ignorância
não é
especializada”.

Enologia é um desses campos que me parecem misteriosos. Ouvir gente descrevendo as propriedades organolépticas, a complexidade e o teor de tanino de vinhos em goles tão pequenos me faz pensar como cabem tantas palavras em tão poucos mililitros. Quem não entende tanto como os connoisseurs chega a ficar desconfiado: será que esses caras não estão enrolando a gente? Pois descobriu-se que embora eles não estejam tentando nos enganar, também não estão sendo totalmente sinceros. Eles estão enganando a si mesmos, como denunciou a desconcertante pesquisa feita na Universidade de Bordeaux: com a justificativa de verificar a diferença entre o vocabulário utilizado para descrever vinhos brancos e tintos, os cientistas pediram a 54 especialistas que identificassem os odores típicos de cada um deles; no entanto, em vez de oferecer os dois tipos de vinho, ofereceram apenas o branco. O vinho “tinto” era vinho branco com corante, e mesmo assim nenhum dos experts notou a diferença, identificando nele as características exclusivas dos tintos. O estudo foi entitulado “As cores do cheiro”, provando a existência de uma ilusão perceptual na qual um sentindo (visão) inflenciou fortemente outro (olfato) (I).

Eu mesmo fui vítima de um auto-engano desse tipo nesse carnaval, visitando grandes amigos no Chile.

Almoçando dentro de uma vinícola, foi-me dito que o vinho Malbec daquela empresa ganhara um importante concurso, sendo eleito o melhor do mundo. E eu, que não sei a diferença de Malbec e Cabernet, vi-me diante de uma garrafa de milhares de Pesos Chilenos (cujo câmbio de 300 para 1 frente ao Real fazia parecer o preço ainda maior). Apesar da ignorância assumida, no entanto, consegui saborear o vinho, em grande parte graças a essa ajuda do preço alto: num estudo mais recente, cientistas da Califórnia realizaram Ressonância Magnética Funcional em vinte sujeitos para ver o que acontecia no cérebro quando experimentavam vinhos de diferentes preços. Mas sem que os sujeitos soubessem o mesmo vinho era oferecido duas vezes, em garrafas marcadas com preço baixo ou alto. O resultado foi não apenas a melhor avaliação subjetiva dos vinhos caros, mas também objetivamente a região do córtex órbito-frontal medial, conhecida por estar envolvida na identificação de prazer em diversos contextos, foi consistentemente mais ativada quando os voluntários achavam que estavam bebendo o vinho mais caro (II).

Portanto, tomar um vinho levando em conta o seu preço – alto – ajuda o cérebro a valorizar a experiência. E mesmo que não haja tanta diferença entre as bebidas, pode valer a pena pelo prazer do momento.

ResearchBlogging.org (I) Morrot, G. (2001). The Color of Odors Brain and Language, 79 (2), 309-320 DOI: 10.1006/brln.2001.2493 (II) Plassmann, H., O’Doherty, J., Shiv, B., & Rangel, A. (2008). Marketing actions can modulate neural representations of experienced pleasantness Proceedings of the National Academy of Sciences, 105 (3), 1050-1054 DOI: 10.1073/pnas.0706929105

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Written by Daniel M Barros

09/03/2011 às 10:17 AM

4 Respostas

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  1. Trem bão é coisa boa; e dinheiro, sóserve pra isso!
    Carpe diem!

    Nicodemus

    09/03/2011 at 4:46 PM

  2. Caro Daniel
    Adorei o post, fez-me mesmo dar risadas. O seu blog continua afiado como sempre e tens feito um bom trabalho ao unir a medicina às letras.
    Sua colega e leitora fiel, Vanessa

    Vanessa Marsden

    09/03/2011 at 5:49 PM

  3. Muito bom! tao gostoso de ler quanto um (bom) vinho bem caro!
    keep up the good work!
    Raquel.

    Raquel Luciana

    10/03/2011 at 9:43 PM

  4. Ótimo texto.
    Só um comentário: não é só o prazer que tem um preço. A cura também, como pode ser constatado em O Preço da Cura. Placebos caros são muito mais eficazes quer placebos baratos.
    Já ouvi psiquiatras dizendo que cobrar bem dos pacientes ajuda o processo terapeutico.

    Leandro R. Tessler

    11/03/2011 at 8:44 PM


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