Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Conversa desagradável

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Acho que alguns leitores podem ficar indignados, mas não consigo deixar de comentar a matéria de capa da Veja da semana passada, Luciano Huck e Angélica mostrando a nova cara do bom-mocismo para um mundo politicamente correto.

Mas o quê nosso blog tem a ver com isso? Tem a ver na medida em que a mídia é uma fonte de modelos mentais para a sociedade, e o modelo apresentado ali é, no mínimo, parcial. É claro que eu torço pela felicidade dos apresentadores (aliás, torço para a felicidade geral das nações), mas pintar a vida como uma comédia romântica, na qual os protagonistas passam por diversos desencontros até finalmente se unir e se tornarem felizes para sempre já se provou uma fórmula prejudicial para a saúde emocional das pessoas.

Para citar apenas um estudo de muitos, numa pesquisa com quase 300 estudantes universitários, encontrou-se uma clara correlação entre a preferência por mídias de conteúdo romântico, como seriados, filmes e revistas, e crenças absolutamente disfuncionais no que se refere a relacionamentos reais, como acreditar que o destino apresentará um parceiro ideal que será imediatamente reconhecido, ou esperar que o parceiro tenha a percepção imediata das necessidades do outro, como se dotado fosse da capacidade de ler sua mente. Nós somos seres sociais, tendemos a nos espelhar no outro, e portanto somos mais sugestionáveis do que gostaríamos. Quando fontes de informação massificam mensagens superficiais e, por que não, mentirosas, acabamos por acreditar naquilo e por viver grandes frustrações.

A matéria da Veja é como os adesivos de carro que viraram moda nos últimos meses: mostram uma família arrumadinha e sorridente, puerilmente retratada como se tudo fossem flores. Claro, ninguém quer colar no seu carro uma cena mostrando a briga com a sogra no almoço de domingo, assim como não seria de se esperar uma reportagem sobre as discussões conjugais de Huck e Angélica. Só quero lembrar que, no dia-a-dia, ser feliz até é possível, mas é mais difícil do que se quer crer e custa um bocado de contrariedades.

ResearchBlogging.org Bjarne M. Holmes (2007). In Search of My “One-and-Only”: Romance-Oriented Media and Beliefs in Romantic Relationship Destiny Electronic Journal of Communication, 7 (3)

Written by Daniel M Barros

08/02/2011 às 11:56 AM

3 Respostas

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  1. Daniel, concordo em parte com você. Se por um lado é deixar tudo muito simplificado mostrar um casal “exemplo”, por outro é ruim não possuir nenhum modelo… As pessoas precisam ter um otimismo e imaginar que é possível alcançar algo melhor em seus relacionamentos.
    Acho que sua crítica é a mesma que se faz aos contos-de-fada, porque tudo acaba em final feliz. Tem certas dificuldades e problemas que você só conta para a criança quando ela já tiver maturidade suficiente para entender, senão fica tudo muito negro. Agora, quem tiver essa maturidade e puder ler no artigo da Veja só este comecinho de algo muito mais complexo, ótimo, vai ler com espírito crítico. Quem não tiver, vai poder imaginar que existe gente que é capaz de ser feliz. E que isso pode servir para ela.

    Beijos Vanessa

    Vanessa

    08/02/2011 at 3:33 PM

  2. Dentro dessa mesma idéia, de apresentar crenças irreais ao público, estava assistindo ao Fantástico – fazia muito tempo que n”a assistia, e na praia só tinha essa opção – quando literalmente, pra mostrar um desses casos (acho que o nome do quadro tinha algo a ver com Cupido), Patrícia Poeta intoduz dizendo que existem quase 7 bilhoes de pessoas no mundo, então é difícil achar a sua cara-metade… pelamordedeus, como alguem ainda acredita que no mundo há 6.999.999.999 pessoas “erradas” e só uma certa!!

    Thiago

    08/02/2011 at 3:50 PM

  3. Olá Dr Daniel,
    Não fiquei indigna de forma alguma, concordo com o artigo e acrescento que não devemos depositar no outro a nossa felicidade ou infelicidade, cabe a cada um procurar os meios de se tornarmos felizes e não culpar o outro por isso.
    Até mais te admiro muito.
    Ana Lúcia
    09.02.11

    Ana Lúcia

    09/02/2011 at 10:40 AM


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