Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

A infelicidade e o Big Brother Brasil

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Está rolando nas redes sociais a campanha “troque o BBB por um livro”: pessoas indicam bons livros que estejam lendo e que achem valer mais a pena do que acompanhar o dia-a-dia dos futuros ex-famosos. Eu não creio que essa campanha convença ninguém a desligar a TV e abrir um livro, mas ainda assim vou dar minha pequena contribuição.

Em 2009 foi publicado um estudo que bisbilhotou as conversas de 79 pessoas durante 4 dias. Um gravador automático registrava os sons ambientes durante 30 segundos a cada 12,5 minutos, gerando mais de 20.000 clips, que mostravam desde silêncio até as conversas reservadas. Os pesquisadores então codificaram os momentos em solidão, conversas superficiais ou conversas significativas. As superficiais apenas tratavam de assuntos banais, sem troca de informações relevantes, enquanto as significativas revelavam algum envolvimento entre os interlocutores. Em dois momentos as pessoas tinham também que preencher questionários de satisfação com a vida e bem estar. Os resultados não deixam margem a dúvida: as pessoas que estavam mais tempo sozinhas são as mais infelizes – os mais satisfeitos passavam 25% menos tempo sozinhos e 70% mais tempo falando.

Mas onde entra o BBB nessa história?

Entra porque os resultados também mostraram que as pessoas mais felizes tinham dois terços a menos de conversas superficiais, engajando-se no dobro de conversas significativas. Falar banalidades, portanto, parece estar associado a menor satisfação com a vida e menos felicidade.

Os pesquisadores interpretaram os resultados pensando nos vínculos sociais que nos unem: papo furado e superficialidade não marcam relacionamentos verdadeiros; só com o envolvimento no mínimo um pouco além da trivialidade é que passamos a conversar sobre assuntos relevantes. E desde muito tempo se sabe que vínculos e amizades profundas são importantes para o bem estar das pessoas.

Assim, trocar o BBB por um livro não vai fazer de ninguém uma pessoa mais feliz. Mas conversar sobre a vinda da família real portuguesa ao Brasil ou sobre os usos da arte da guerra na empresa em vez de comentar as fofocas de terceiros pode ser um começo.

ResearchBlogging.org Mehl, M., Vazire, S., Holleran, S., & Clark, C. (2010). Eavesdropping on Happiness: Well-Being Is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations Psychological Science, 21 (4), 539-541 DOI: 10.1177/0956797610362675

Written by Daniel M Barros

25/01/2011 às 10:19 AM

9 Respostas

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  1. Caro Daniel, não concordo plenamente com este diagnóstico. Várias experiências mostram que o conteúdo da comunicação é geralmente fútil ou inútil. Não comunico para transmitir conhecimentos ou mesmo informações, por isso basta enviar uma mensagem curta. A finalidade da comunicação não é a informação mas…a comunicação ou a metacomunicação. Várias análises de conteúdo de ligações telefônicas mostraram que 99% do conteúdo tem nada a ver com informação. Eu comunico só para dizer que estou comunicando com você (metacomunicação) o que explica as intermináveis comunicações entre adolescentes. Abraço!

    Jean Louis Peytavin

    25/01/2011 at 10:30 AM

  2. oi Daniel!

    concordo com sua sugestao de procurarmos ter mais conversas significativas e menos banais… Alias, uma vez li sobre os niveis de conversa que podem ser o termometro de um relacionamento, de superficial a trivial a real: falar sobre pessoas (fofocas), fatos (noticias, sem envolvimento) ou sonhos e planos (pessoal).
    No entanto, eu acho que a ideia do troque o BBB por um livro nao esta visando a felicidade das pessoas, mas sim uma melhora na cultura geral do brasileiro…

    bjos,
    Raquel (irma na Aglei)

    Raquel Luciana

    25/01/2011 at 11:39 AM

  3. oi daniel!
    adorei o post!
    assino embaixo de td q vc escreveu e ainda digo mais: viva os bate-papo mais cabeça, as conversas com conteúdo!!
    um abraço,
    jú m.

    25/01/2011 at 12:33 PM

  4. Olá, Daniel,
    Isso é uma coisa bem interessante e que vem me preocupando muito pessoalmente e profissionalmente.
    Ao contrário do entendimento de algumas pessoas, não acho que o objetivo principal devesse ser melhorar a cultura, mas sim, resgatar os relacionamentos, os vínculos entre as pessoas.
    Antigamente nós tínhamos famílias numerosas, cheias de tios, primos, que se viam regularmente e cresciam juntos, com companheirismo, carinho, solidariedade, amizade e, porque não dizer, conflitos. Todo mundo sabia o que acontecia com o outro, as coisas eram mais compartilhadas. Muitos amigos eram desde a infância até o sempre.
    Hoje as famílias são menores e seus membros, assim como os amigos, estão sempre muito ocupados. Muitas pessoas tem 700 amigos no Orkut, mas não tem ninguém a quem pedir um conselho.
    Quantos e-mails pessoais são recebidos por mês? Quantas linhas eles têm?
    Bem, torço que as pessoas troquem a quantidade pela qualidade, o global pelo particular. O BBB pelo amigo.
    Abraços,
    Christiane

    Christiane K

    25/01/2011 at 2:21 PM

  5. Olá Daniel,
    parabéns pelo site!
    Concordo – mas para conversar destes assuntos é bom ter lido alguns livros (1808, 1822: familia real portuguesa; guerra na empresa – algum para recomendar?) então tudo se fecha não é mesmo?
    Abraços,

    Andre Brunoni

    27/01/2011 at 1:29 PM

  6. Dani,rs somos amigos desde criança,criamos vínculos muito fortes,e só conversamos banalidades rsrsrsr,como assim então?
    To brincando,adoro ler suas publicações e para falar a verdade concordo com a frase papo furado e superficialidade não marcam relacionamentos verdadeiros; só com o envolvimento no mínimo um pouco além da trivialidade é que passamos a conversar sobre assuntos relevantes. E desde muito tempo se sabe que vínculos e amizades profundas são importantes para o bem estar das pessoas.
    Acho isso muito verdadeiro.
    bjs

    Fabiana

    28/01/2011 at 10:55 AM

  7. O potencial de impactação social do que você está dizendo é gigantesco. Gostei muito!

    Alvaro

    31/01/2011 at 9:08 AM

  8. Vamos com certeza fazer parte desta campanha,e aderir a leitura, e não deixar que programas tão sem conteúdo invadam nossas casas e nos tragam tanto constrangimento junto de nossas crianças e demais familiares.

    Rosa

    03/02/2011 at 12:58 AM

  9. ummmmmm bom de mais cara esta atualizado de todas e qualquer informaçao que veia nos alimentar que tragar coisas boas como por exeplo de ler i sso e tudo

    rinaldo de lucas do rio verde mt

    thiago

    09/02/2012 at 5:35 PM


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