Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Angústia e redenção no Reveillon

with 4 comments

[tweetmeme]
Pensei muito no que escreveria como último post de 2010. Como poderia fugir do lugar comum dos balanços de final de ano, planos para o ano novo e que tais. Antes que tivesse tempo, eis que os últimos dias de 2010 se tornaram tão tumultuados que nem pude fazer um último artigo, e o tema surgiu sozinho.

O plano era chegar em Springfield logo após o Natal, com intuito de passar o Reveillon na Times Square.

Pousando em Chicago, no entanto, soubemos da nevasca na costa leste dos EUA e do cancelamento de todos os vôos para lá. Fomos remarcados para o dia seguinte, mas no “dia seguinte” fomos re-remarcados para dali a 3 dias. Só sairíamos no dia 30 de dezembro, e com conexão no interior do Arkansas. A esta altura eu achava que já aprendera a lição de como são frágeis nossos planos. Mas não o suficiente: ocorre que o tal vôo para Arkansas atrasou, o que nos levaria a perder a conexão; foi-nos, portanto, recomendado não embarcar, pois era uma cidade tão pequena que não teríamos como deixá-la por dias. Em poucas linhas não é possível descrever o desespero que tomou conta de mim. Minha cara de choro foi tão evidente que comoveu a atendente a ponto de ela fazer o imposssível de nos embarcar naquela noite. Já era quase início da manhã do dia 31 quando chegamos ao destino inicial.

Até aqui atestara que os planos são falhos. Em seguida lembraria como as expectativas também são.

A ideia de passar o Reveillon em Times Square sempre teve apelo para mim. Ser urbano que sou, já tendo passado na Avenida Paulista, amante de NYC, achava que seria tudo lindo. Sim, estava frio. Sim, a infra-estrutura seria precária. Pouca comida, pouco transporte, nenhum banheiro, horas de espera, nada disso tiraria o brilho da festa. Mas estava muito frio, a comida era nenhuma (só depois uns vendedores de pizza salvariam a noite), os rins não paravam de encher a bexiga, e transcorridas 3 horas, quando ainda faltavam 4 para a virada, lembrei de como somos incapazes de criar cenários emocionais realistas antecipadamente (traduzindo: bateu um arrependimento). Para quê tudo aquilo? Só para ver a bola cair? Não valia a pena. Afinal, não sabia eu como as expectativas nos enganam?

Evidentemente que não, pois quando finalmente a bola desceu em Times Saquare e choveu papel picado ao som de New York, New York na voz do Sinatra, duas lágrimas brotaram. Brega. Como qualquer coisa emocionante.

Mais uma vez eu me esquecera de que não somos capazes de antever nossas reações emocionais a cenários futuros. Errei ao prever quão ruim a tarde seria. Mas errei também ao prever quão boa seria a noite.

Daniel Gilbert já escreveu abundantemente sobre essa nossa incapacidade, e como ela nos gera infelicidade (o artigo citado abaixo é 100% ilustrado pelas aventuras dessa última semana que acabei de contar: nossas previsões são enviesadas, parciais, truncadas, resumidas e dependente do contexto – tudo o que nos ocorreu).

A receita para um ano novo feliz, portanto, é maneirar nos planos e nas expectativas. Pouca coisa sai exatamente como planejamos, e mesmo quando isso ocorre, a emoção é sempre diferente do que fantasiamos. Então, que 2011 corra mais solto, e que assim sejamos felizes.

Pós-escrito: muitos acharam que o texto estava muito negativo. Fiz uma errata no post seguinte – Cérebro: os bastidores da história

ResearchBlogging.org Gilbert, D., & Wilson, T. (2009). Why the brain talks to itself: sources of error in emotional prediction Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 364 (1521), 1335-1341 DOI: 10.1098/rstb.2008.0305

Anúncios

Written by Daniel M Barros

01/01/2011 às 8:34 PM

4 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Demorei, mas aprendi a licao das expectativas e planos (e vc sabe bem como…). Deixa a vida me levar… Feliz 2011!

    Aloisio

    01/01/2011 at 9:42 PM

  2. “Minha cara de choro foi tão evidente que comoveu a atendente” – veio a imagem do gato de botas do shrek fazendo aquela carinha…kkk – um pouco de manipulaçao e tudo nestas horas! de qq maneira, o fato de ter sido dificil potencializou a emoçao. estamos vivos, desejamos, lutamos, nos frustramos, q otimo! feliz 2011 pra vcs!

    monica

    02/01/2011 at 8:57 AM

  3. Felizmente meus últimos quatro anos, após a morte marcante da minha mãe, vivo meus finais de anos sem quaqlquer expectativa. Aprendi reconhecer que por mais simbólico que seja a “passagem de ano”, desejamos sempre que o futuro seja melhor – mesmo que esqueçamos destes desejos no nosso dia a dia. Tudo que nasce também morre, portanto que a vida seja celebrada enquanto tivermos consciência dela.

    Luiza

    02/01/2011 at 2:59 PM

  4. kkkkkk…
    É chegada a hora de ter filhos!!! ninguém melhor que eles para nos ensinar a controlar nossas expectativas, não traçar tantos planos e sermos mais flexíveis em tudo…(e olha que sou quem está dizendo isso!), mas a emoção que eles nos trazem é indescritível e impossível de se prever ou de descrever!!!

    Tatiane

    02/01/2011 at 9:52 PM


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: