Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Porque se agridem os gays

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Está em pauta nos últimos dias o episódio de agressão contra homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo. Muitas respostas surgem para a pergunta de por quê isso acontece, e eu também tenho a uma teoria: quem agride homossexual faz isso porque não tolera sua própria homossexualidade. Pode ser polêmico, mas tenho três testemunhas de peso a favor da minha tese.

Em primeiro o velho Freud, com seu conceito de formação reativa, que é um mecanismo de defesa do ego no qual, diante de desejos inconscientes e tendências inaceitáveis para o indivíduo, este adota o comportamento exatamente oposto. Assim, alguém com desejos homossexuais latentes reagiria com raiva quando confrontado com tal impulsos.

Pode até parecer teórico demais ou pouco científico, mas foi uma ideia posta à prova num estudo já clássico: em 1996, três psicólogos convidaram 64 voluntários, todos homens heterossexuais, para uma pesquisa, classificando-os em muito ou pouco homofóbicos de acordo com um questionário preenchido pelos sujeitos. Depois disso, foram assistir a três vídeos eróticos de cerca de 4 minutos casa, um mostrando um casal heterossexual, outro com duas mulheres e um com dois homens. Um sensor media o aumento da circunferência peniana, que reflete o grau de excitação sexual, durante os filmes. O resultado é que não houve diferença entre o grau de excitação entre os homofóbicos e não-homofóbicos diante do filme com duas mulheres nem com um casal. Mas houve uma diferença significativa no grau de excitação entre os dois grupos diante do filme com os homens: adivinhem se não foi o grupo mais homofóbico aquele que ficou mais excitado diante do filme gay? E não foi só isso. Os participantes deviam assinalar o quão excitados estavam em cada um dos filmes, e normalmente não houve discrepância entre o que os sujeitos diziam e o quanto era medido pelo sensor, a não ser nesse caso, quando os homofóbicos diziam-se menos estimulados do que o verificado em seus corpos – olha aí de novo o aspecto inconsciente apontado por Freud.

Minha última testemunha é o brilhante filme Beleza Americana, Oscar de melhor filme, melhor diretor (Sam Mendes), melhor ator (Kevin Spacey) e melhor roteiro no ano 2000. Um personagem homofóbico e neo-nazista acha que o vizinho (Spacey) é gay. O seu incômodo cresce ao longo do filme, até que, numa das melhores cenas, ele vai até o vizinho, beija sua boca e em seguida o mata com um tiro na cabeça. O desejo inconsciente rompe a barreira da repressão e leva ao beijo, mas é uma situação de tal forma intolerável que o faz exterminar a fonte desse desejo.

Me parece, então, que psicanálise, fisiologia e arte estão dizendo a mesma coisa: homofobia tem uma forte relação com homossexualismo. Inconsciente, no entanto, e por isso mesmo, muito perigoso.

ResearchBlogging.org Adams, H., Wright, L., & Lohr, B. (1996). Is homophobia associated with homosexual arousal? Journal of Abnormal Psychology, 105 (3), 440-445 DOI: 10.1037/0021-843X.105.3.440

Written by Daniel M Barros

21/11/2010 às 6:03 PM

7 Respostas

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  1. Pode explicar alguns casos. Mas não sei o quão generalizável isso seria. Certamente há casos de heterossexuais que odeiam homossexuais – em geral odeiam qualquer grupo diferente: negros, estrangeiros, de religião diferente…

    []s,

    Roberto Takata

    Roberto Takata

    21/11/2010 at 9:38 PM

    • Grande Takata. Pois é, mas nos casos desses ódios ao “diferente em geral” normalmente eu vejo ou um movimento de manada, quando o grupo elege um inimigo comum e se mantém unido em torno disso, ou racismo puro, socialmente determinado. No caso da homofobia, no entanto, sempre acho estranho como muitas dessas pessoas ODEIAM os gays com toda a força, independente do grupo a que pertencem, independente do que os pais ensinaram etc. Também não acho que explique tudo, mas acredito que explique bastante.

      Daniel M Barros

      21/11/2010 at 10:05 PM

  2. Querido Daniel,

    Também me pergunto qual o impacto das tais formaçõs reativas nessas loucuras. Em várias ocasiões, me parecem evidentes. Acho Beleza Americana incrível pra mostrar isso. Em outros casos, fico intrigado com o ódio, que não se restringe aos gays, mas às mulheres, aos judeus, aos negros, ou a toda diferença. Acho de um narcisismo primitivo, pobre, excludente e violento. Seu texto é muito bom. Abração,

    Rodrigo

    Rodrigo Lage Leite

    21/11/2010 at 11:54 PM

  3. Sei não, isso até pode explicar alguns casos, mas generalizar é sempre um problema principalmente em comportamento como disse o Takata. O que me parece mais lógico é o velho problema de sempre: grupo social tentando reafirmar seus valores e adolescentes imaturos tentando fazer parte de um grupo social…

    Rafael

    22/11/2010 at 8:47 PM

  4. Achei sua frase infeliz: “quem agride homossexual faz isso porque não tolera sua própria homossexualidade”
    acho que o que na verdade você quis dizer foi algo do tipo: quem agride homossexual faz isso para se sentir superior e desta forma tentar se enganar, ignorando a existencia da homossexualidade que é enrustida.

    Lucas

    25/11/2010 at 7:00 PM

    • Usei “Não tolera” numa simplificação. Na verdade, de acordo com o estudo citado, os homofóbicos nem sequer conhecem esse aspecto de sua realidade psíquica, que segundo Freud reprimem porque não tolerariam.

      Daniel M Barros

      25/11/2010 at 7:37 PM


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