Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Se o Tiririca tivesse depressão

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Nenhum livro é tão ruim que não tenha alguma utilidade, disse Plínio, o velho. A famigerada auto-ajuda, tão atacada e desacreditada, vem mostrando que tem – e muita – utilidade segundo pesquisas internacionais.

A biblioterapia, que ganha cada vez mais espaço nos países de língua inglesa, consiste basicamente em prescrever aos pacientes com quadros psiquiátricos leves alguma literatura de auto-ajuda, em lugar de medicamentos ou de psicoterapia, fazendo um acompanhamento mais esparso. Desnecessário dizer que esta abordagem torna o tratamento bem mais barato, o que faz dele uma alternativa interessante em termos de atenção primária a saúde, já que há uma sobrecarga crescente de pacientes com problemas psiquiátricos nos ambulatórios gerais, a maioria absoluta com quadros leves; se fossem todos encaminhados para psiquiatras não haveria médicos para todos, e ainda por cima faltariam especialistas para os quadros graves.

Hoje já existem diversos estudos comparando a eficácia da biblioterapia com os outros tratamentos. Um deles foi inteligentemente desenhado para comparar o uso de livros com o “tratamento habitual”: 6 médicos se voluntariaram para tratar de um grupo de 38 pacientes; para 19 deviam prescrever o tratamento que melhor conviesse (o que eles bem entendessem, no português mais claro), e para outros 19 eles podiam apenas recomendar a leitura do livro Feeling Good, de David D. Burns. Trata-se de um manual de auto-ajuda recheado de técnicas cognitivo-comportamentais publicado em 1999. Durante 6 semanas os pacientes deviam ou ler cerca de 11 páginas por dia, ou simplesmente seguir o tratamento, que em todos os casos baseou-se em medicamentos ou psicoterapia. Após esse período havia um retorno em 1 e 3 meses.

A esta altura você já não se surpreenderá ao saber que os tratamentos foram comparáveis em todos os aspectos: adesão dos pacientes, adesão dos médicos, custo do tratamento e eficácia não apresentaram diferença, quer com remédios ou terapia, quer com o livro de auto-ajuda. Sabendo que os remédios no longo prazo têm custo mais elevado, que há efeitos colaterais, interações medicamentosas etc, torna-se claro que em casos leves a biblioterapia pode ser uma boa pedida. Excluídos os casos graves, a principal limitação para tal tratamento fica mesmo por conta da compreensão da linguagem escrita por parte do paciente.

Isso signfica, por exemplo, que se o Tiririca não pudesse assumir o cargo de deputado em razão de analfabetismo (total ou funcional) e por isso ficasse deprimido, não haveria livro capaz de dar jeito. Com mais de um milhão de votos, ele é um símbolo da inviabilidade de sequer pensarmos tal tratamento no Brasil, onde de cada 4 cidadãos (cidadãos?) apenas 1 compreende plenamente o que lê.

ResearchBlogging.org Naylor, E., Antonuccio, D., Litt, M., Johnson, G., Spogen, D., Williams, R., McCarthy, C., Lu, M., Fiore, D., & Higgins, D. (2010). Bibliotherapy as a Treatment for Depression in Primary Care Journal of Clinical Psychology in Medical Settings, 17 (3), 258-271 DOI: 10.1007/s10880-010-9207-2

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Written by Daniel M Barros

16/11/2010 às 4:17 PM

Uma resposta

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  1. É por isso que o mercado de audio books (desenhado, em princípio, para “leitores” com deficiência visual) seria bem promissor no Brasil.

    Quem sabe o prórpio Tiririca não sugere como pauta de votação a implementação da obrigatoriedade da produção de audio books de auto-ajuda para analfabetos deprimidos?? Ou deprimidos preguiçosos, que não querem ler?

    Certamente teríamos problemas com a pirataria do material de audio… mas aí já é outra história!!!

    Muito boa a postagem! :)

    Andre L Souza

    17/11/2010 at 10:32 AM


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