Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

A complexidade real da vida virtual

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O mundo nunca foi um lugar simples, mas sinto que está ficando cada vez mais complexo. Não acho que essa sensação seja privilégio de nosso tempo, no entanto: a cada grande mudança social as pessoas devem ter achado que tudo estava muito complicado – imagine os impactos que foram a transição da cultura oral para escrita ou da vida rural para vida urbana, por exemplo.

Digo isso pensando nas notícias recentes envolvendo a internet. Veja o caso da moça que falou contra nordestinos. Quantas vezes você já não ouviu alguma infame piada racista contra uma minoria? Acho lamentável (na faculdade fui convencido por amigos mais inteligentes do que eu que piadas racistas são um erro, outro dia explico essa história), mas isso não trazia maiores repercussões. Mas hoje uma pessoa posta um comentário desses no twitter e acaba desmoralizada, demitida e processada.

Agora uma pesquisa com 400 adolescentes brasileiros encomendada pela McAfee revela que 83% deles utilizam as redes sociais e trocam informações pessoais em público; pior – 46% postam informações sobre sua localização; e pior ainda: 53% sabem driblar a vigilância dos pais. De novo: quem nunca se envolveu em alguma forma de exposição quando jovem? Numa briga, numa bebedeira, numa piada ridícula que só tinha sentido naquele momento a pessoa se expunha, mas o fato se extinguia e em algum tempo virava uma recordação embaraçosa. Agora, esse momento é potencializado e literalmente milhões de pessoas podem ver – para sempre – um jovem vomitando no colo de outro. Essa piada terá graça quando ele estiver procurando emprego?

Os limites da vida virtual não estão claros, as consequências das atitudes on-line estão em processo, não tendo sido avaliadas por tempo suficiente para que calculemos os riscos de forma adequada, ainda. Pesquisa recente com seis “focus group” com estudantes de medicina mostrou que embora todos concordem que não se pode ferir o sigilo médico, não há qualquer outro consenso com relação ao grau de exposição permitido, o quê é prejudicial ou não, se é legítimo falar mal do chefe ou fazer menção ao próprio uso de álcool, por exemplo. Poucos notam que a imagem que tornam pública no facebook não bate com sua imagem pública como profissionais de saúde (I).

Creio que chegará o tempo em que aprenderemos a lidar com essa nova realidade. Idependentemente da tecnologia, contudo, acredito que os modelos válidos desde a Antiguidade – ser educado, não dar intimidade a estranhos, respeitar os mais velhos, não falar mal do próximo etc, etc – dão conta do recado em qualquer mundo em que vivamos, seja ele real ou virtual.

ResearchBlogging.org (I) Chretien, K., Goldman, E., Beckman, L., & Kind, T. (2010). Itʼs Your Own Risk: Medical Studentsʼ Perspectives on Online Professionalism Academic Medicine, 85 DOI: 10.1097/ACM.0b013e3181ed4778

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Written by Daniel M Barros

11/11/2010 às 11:49 AM

Publicado em Uncategorized

Uma resposta

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  1. Daniel, devido ao “rodeio das gordas”, tive um conversa sobre o assunto com minha sobrinha de 18 anos, que está no 1º ano da faculdade… Mas sinto que todo alerta é insuficiente, que a geração orkut, facebook, etc nao consegue dimensionar o efeito de seus atos. E o exemplo de cima também colabora no sentido de confundir os valores, vide os dólares em cuecas, meias, a bolinha de papel, entre tantos outros,tudo documentado, nada punido.

    Andréa

    13/11/2010 at 10:02 AM


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