Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O luto, entre The walking dead e A partida

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Coincidência ou não, nesse feriado que começava com o Haloween e terminava com Finados, assisti duas obras que versam sobre a morte. Tão diferentes na superfície, me parecem que são no fundo complementares, numa análise mais detalhada.

Com recorde de audiência de estreia na TV paga americana, o seriado The walking dead conta a história de um mundo assolado por zumbis, impondo aos sobreviventes a árdua tarefa de escapar aos seus ataques e tentar resolver a situação. Para os que não sabem, zumbis são pessoas mortas que mantém sua capacidade de agir, mesmo que o pensamento ou a comunicação sejam precários e a putrefação seja irreversível.

Já o filme A partida, de Yojiro Takita, foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, e – confesso embaraçado – talvez o único que me fez soluçar desde a adolescência. Conta a história de um violoncelista cuja orquestra em Tóquio é desfeita, forçando-o a voltar para seu interior natal (geográfico e psicológico), onde, sem emprego, começa a trabalhar como agente funerário, preparando os mortos para serem enterrados num belíssimo ritual.

O quê as duas obras têm em comum? Embora a morte seja a resposta óbvia é o luto que faz o contraponto mais interessante. No primeiro episódio do seriado um dos protagonistas vê sua mulher se transformar em zumbi e tenta matá-la (o que é possível destruindo o cérebro) para poupá-la de uma existência tão miserável. Em lágrimas, não consegue. Ela não fez a passagem, não foi enterrada, não morreu de fato; não poderá, portanto ser eliminada por ele, e pelo visto seguirá o assombrando séria afora. Fazer essa passagem é justamente o trabalho do músico/coveiro em A partida. Em diversas cenas do filme fica evidente como o estresse e a tensão das famílias enlutadas é aliviado quando o ritual é completado, quando eles conseguem se despedir dos mortos e enterrá-los. Numa das cenas mais belas ele mesmo passa por essa experiência de liberação – não conto mais para não estragar.

O estudo sobre o luto evoluiu bastante nas últimas décadas, e até hoje não foi encontrado um tratamento ou espécie de intervenção comprovadamente eficaz para “resolver” o luto. Numa revisão ampla sobre o tema publicada em 2010 por cientistas da Bélgica, não foi identificada uma terapia específica que possa ser amplamente aplicada para as pessoas enlutadas. Suporte social, psicoterapia, intervenção antes da morte, nada parece muito útil. Como coloca Phylllis Silverman, especialista no tema, “O luto não é algo que você supere. A perda permanece com você, mas você se acomoda e segue com a vida, transformada pelo que aconteceu”.

É por isso que os rituais de passagem são importantes; para que, a despeito da presença daquela ausência, a vida possa ser retomada em sua nova configuração. Sem isso, os zumbis continuam sua perseguição, impedindo a vida de seguir. Como disse Nietzsche “Somente onde há sepulturas pode haver ressurreições”. 

ResearchBlogging.org Henk SCHUT, & Margaret STROEBE (2010). EFFECTS OF SUPPORT, COUNSELLING AND THERAPY
BEFORE AND AFTER THE LOSS: CAN WE REALLY HELP
BEREAVED PEOPLE? Psychologica Belgica, 50 (1&2), 89-102

Written by Daniel M Barros

03/11/2010 às 9:38 AM

12 Respostas

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  1. Olá Daniel, bom dia!

    Excelente post!! Tb me impactou mto a cena em q o marido não consegue “matar” a esposa zumbi em “The Walking Dead”….lidar com a morte é mesmo mto dificil para os familiares, é como uma ponte q alguns conseguem atravessar e outros tem mais dificuldade. Está aí a importância dos rituais q o filme “A Partida” tem a incumbência de mostrar!

    Um abraço e parabéns pelo blog!

    03/11/2010 at 11:55 AM

  2. Segundo minha esposa:

    Ausência

    Por muito tempo achei que a ausência é falta.
    E lastimava, ignorante, a falta.
    Hoje não a lastimo.
    Não há falta na ausência.
    A ausência é um estar em mim.
    E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
    que rio e danço e invento exclamações alegres,
    porque a ausência, essa ausência assimilada,
    ninguém a rouba mais de mim.

    Carlos Drummond de Andrade

    Um abraço.

    Andre Bressan

    03/11/2010 at 4:01 PM

    • Daniel,

      Queria tanto lembrar do poema do Drumond, que esqueci de comentar: Não vi nenhum dos filmes acima. A cena dos zumbis (que dicilmente vou assistir… só se vc me disse que é muito bom o filme – o que duvido) é até relativamente cliché, mas real… muito perto do que seria uma eutanásia… se fosse a sogra no lugar da esposa… bem, deixa pra lá.

      De qualquer forma, em A partida, parece um luto múlti-fásico (multi-nível?), parece muito muito interessante. Mas nunca havia ouvido falar.

      Me lembrei agora de uma passagem meio “ícone” do Novo Testamente, que, apesar de todas as explicações que dão algum sentido a ela, sempre me dão uma sensação de sequidão na boca… um pouco amarga.

      Quando alguém comunica a Jesus que seu pai morreu e que irá enterrá-lo para depois seguir Jesus, este responde “os mortos que enterrem seus mortos”. É uma frase dura, que eu não sei se evita a “passagem”/luto ou se incorpora o luto na vida.

      Alguma opinião?

      Andre Bressan

      03/11/2010 at 9:14 PM

    • Difícil, não é André? Há um teólogo que respeito muito, cuja mensagem abaixo é uma de suas mais brilhantes; acho que oferece uma resposta a sua questão melhor do que eu poderia me propor a fazer: http://www.ibab.com.br/mensagens/20081019_noite_erk.mp3

      Daniel M Barros

      03/11/2010 at 10:20 PM

    • Teologicamente ou não, pessoas são pessoas… penso na negação do luto ritual…

      Mas segundo esse estudo que você mencionou, talvez realmente não faça muita diferença a “passagem”, pois o luto está apegado à história da pessoa.

      Não sei se eu hesitaria diante de uma esposa zumbi (espero que a minha não leia isso…).

      Um abraço.

      `PS: Vou ouvir o que o kvitz tem a me dizer assim qu e possível…

      Andre Bressan

      03/11/2010 at 11:29 PM

  3. Há algum tempo descobri este blog, e me identifiquei muito com os posts. Desde então visito periodicamente. Gostaria de parabenizá-lo pelos mesmos, e agradecer a dedicação em escrevê-los. São, de fato, significativos para mim.

    Henrique

    03/11/2010 at 8:09 PM

    • Muito obrigado, Henrique. Retornos como o seu estimulam a seguir escrevendo.

      Daniel M Barros

      03/11/2010 at 8:25 PM

  4. Gosto do tema…
    No filme A Partida, sinto que mais do que um ritual de passagem, o que se vê é um respeito e uma reverência pela vida que se completa na morte.
    Abraços

    Leonardo Consolim

    03/11/2010 at 8:21 PM

    • Que visita ilustre!
      Concordo que o tema da reverência é chave, mas acho que esta postura ajuda os enlutados (no fundo acho que ideia de passagem importa é para quem fica).
      Apareça mais vezes, rapaz!

      Daniel M Barros

      03/11/2010 at 8:28 PM

  5. Olá Dr. Daniel

    O ritual da passagem de um antequerido é muito importante para os que os amam é uma sensação de conforto espiritual, a dor que sentimos na “perda” diminui com o tempo, mas a dor da saudade aumentará a cada dia.
    Comentei para a minha psicologa um sonho, uma lembrança forte que tenho dos meus pais e isto foi trabalhado na terapia e pude perceber que embora eles tenham feito a passagem, eles vivem dentro de mim isto alivia um pouco a saudade que sinto.
    Parabéns pelos artigos e também pelo lançamento do livro.

    Ana Lúcia

    19.11.10

    Ana Lúcia

    19/11/2010 at 11:36 AM

  6. Bom dia para todos,
    vi o 4º episódio pelo http://leu-meu-email.blogspot.com/, muito bom, tenho medo de comprar as HQs e ter muitos spoilers…

    Jordan_1976

    23/11/2010 at 9:31 AM


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