Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O caso Bruno – a ética do crime

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Muito me perguntaram sobre o que eu achava do caso Bruno, goleiro do Flamengo acusado de mandar matar a amante. Ninguém acha que ele seja louco, então por que será que tanta gente quis falar com um psiquiatra sobre o caso? Acho que foi pela brutalidade da ação, e mais do que isso, pelo extremo desprezo demonstrado pela vida, refletido na indiferença com que os acusados vêm lidando com a situação.

Lembrei-me do caso do bandido que fora filmado ensinando a sobrinha a brincar de assaltante, estimulando-a a dar coronhadas em sua boneca. À época, disse acreditar que o que nos chocava era “o contraste entre o conteúdo aversivo e a aparente frivolidade” dos envolvidos, fenômeno que se repente no caso atual.

O que nos assusta é a diferença gritante entre nossa reação de horror e a reação dos acusados, que agem como se se tratasse de um problema menor. Esse abismo surge, acredito, porque a forma de ver a vida é tão diferente para alguém envolvido no mundo da criminalidade organizada que se torna impossível compartilhar as formas de pensamento. Como havia dito sobre o outro caso, “Tanto a palavra ética (do grego, ethos) como a palavra moral (do latim, mores) têm seus significados originalmente ligados a “costumes”: a forma como as coisas são, os hábitos de uma comunidade. Com o tempo seu sentido evoluiu de descrever os usos e costumes para referir-se ao que é certo, qual a boa conduta; afinal, definir o certo, o correto – o bom, enfim – apoia-se em grande parte naquilo que é feito e aceito pela maioria”.

Cada vez mais me convenço que, na subcultura do crime, aumenta a massa que enxerga o outro como um objeto, desprovido de valor intrínseco simplesmente por ser uma pessoa. Concluo, novamente, como no caso da menina que brincava de assaltar sua boneca que “é com tristeza e uma ponta de desespero que somos confrontados com o fato de que, no final das contas, aquele comportamento, para eles, é ético, pois em seu contexto é assim que “as coisas são”.

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Written by Daniel M Barros

09/07/2010 às 4:04 PM

6 Respostas

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  1. A dificuldade é de aceitar, quase que goela abaixo, que essas “coisas” podem estar mais próximas da nossa realidade do que imaginamos.

    Thiago

    09/07/2010 at 8:29 PM

  2. Excelente comentário. Sinto-me perplexo com esse caso e tantos outros que nos chega. A mim parece que essa patologia ética, moral, emocional, é como erva daninha:cortamos aqui, brota ali, regada e cuidada pela impunidade, frequentemente.

    Mauro Gomes

    10/07/2010 at 1:50 AM

  3. É importante enfatizar a diferença entre loucura e criminalidade, mas acredito que os profissionais de saúde mental tenham um conhecimento mais aguçado sobre o funcionamento normal da mente humana, nem que seja para diferenciar o que é científico e o que é suposição.

    Só uma correção, tecnicamente crime organizado é aquele que envolve a participação de agentes públicos, ou seja, não é sinônimo de formação de quadrilha. Para ilustrar, a máfia só é crime organizado na medida em que contar com a ajuda de policiais, juízes e políticos corruptos.

  4. Olá

    Parto sempre do princípio, de que com certas medidas, teríamos resultados muito positivos. E são medidas bem fáceis de serem aplicadas – Educação, cultura, base familiar, saúde, SAÚDE MENTAL, valorização profissional, estímulo criativo, estímulo á sensibilidade e por aí vai. Difícil? Com vontade de fazer e menos corrupção, seria bem simples.
    Acho que muitos profissionais da saúde, não estão prontos para diagnosticar certas doenças mentais. Já vi muita confusão e diagnósticos errados ou ainda que demoraram anos para serem concluídos.
    O que esperar então, da opinião pública, que não sabe nem em que planeta vive? Acham que bipolaridade é simplesmente “estar feliz ou triste” e não tem a menor noção, do quanto é uma doença complexa e grave.
    Vi um programa na tv, em que abordavam a psicopatia. Fico perplexa com a falta de reflexão do ser humano…
    Se psicopatia não é doença, então deve ser pior, pois existem doenças que podemos curar ou tomar medicações
    que as controlem.
    No tal programa, todos falavam dos psicopatas, como se fosse culpa deles a tal condição. Ao mesmo tempo a psiquiatra dizia que a psicopatia não era uma doença, que o indivíduo não tinha controle de seus atos e não conseguia conter seus impulsos.
    A mim não interessam nomenclaturas criadas. São apenas nomenclaturas. O que importa, é que temos
    seres humanos, sofrendo de diversas doenças (ou o nome que acharem mais bonito) conhecidas e desconhecidas (pois ainda nem descobriram todas) e que não tem condições nenhuma de buscar tratamento. Sabe por qual motivo? Não exite uma política para a saúde mental. Simples assim. Só querem penalizar, penalizar e penalizar.

    Abraços

    Balaio Variado

    10/07/2010 at 4:44 PM

    • É comum as pessoas ficarem impressionadas, mas ninguém quer aceitar que isso pode acontecer com qualquer um de nós.

      Leibtniz

      12/07/2010 at 8:53 PM


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