Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

A psiquiatria e neurologia de Alice e Lewis Carroll

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Promessa é dívida: aí vai o post extra sobre a neuropsiquiatria de Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho.

A esta altura muito já se falou sobre a suposta pedofilia do Lewis Carroll, pseudônimo do matemático, religioso e escritor Charles Lutwidge Dodgson (1838-1898). Carroll se tornou amigo da família Lidell, cujas filhas se tornaram próximas a ele; Alice, em especial, foi uma de suas musas. Embora ele negue que a personagem fosse nela inspirada, até as iniciais de seu pseudônimo, LC, formam um trocadilho em inglês com o nome da menina – e ele era todo trocadilhos. Além de escritor, Carroll foi um pioneiro da fotografia, e algumas imagens feitas por ele com meninas transpiram sensualidade. Embora haja a tese de que na época tais fotos tinham um caráter de idealização e louvor da pureza infantil, mais dois elementos ao menos indicam que havia algo de diferente no ar: as “cartas às suas amiguinhas”, nas quais enviava 10 milhões de beijos a elas (quando não pedia cachos de seus cabelos para beijar), e também o rompimento com a família Liddell, já que a mãe de Alice não só proibiu o encontro de suas filhas com o autor, como queimou suas cartas. O que ela teria percebido ninguém jamais soube. A verdade é que nenhum fato foi comprovado contra Lewis Carroll (se não me falha a memória, ele chegou a ser investigado formalmente). Pessoalmente, acredito que ele tenha passado boa parte de sua vida lutando contra seus desejos, sublimados – se me permitem os psicanalistas – nas obras de Alice.

Um problema bem menos controverso diz respeito à enxaqueca da qual ele provavelmente sofria. As alucinações visuais retratadas nas suas obras, sobretudo as distorções de tamanho experimentadas por Alice, são também encontradas nas auras enxaquecosas (alterações que geralmente antecedem as crises de dor de cabeça), nomeadas Síndrome de Alice no país das maravilhas em sua homenagem (I). É bem possível que Carroll tenha se inspirado em sua própria doença para criar tais imagens.

Finalmente, a intoxicação por mercúrio. Chamada hidrargirismo (do latim, hydrargyrum = mercúrio), tal transtorno era comum em chapeleiros, pois eles usavam mercúrio para curtir peles na fabricação de seus produtos, e acabavam por inalar os vapores emanados (II). Provavelmente foi isso que consagrou a expressão “mad as a hatter” (louco como um chapeleiro), famosa na era vitoriana, e que acabou por inspirar Carroll, embora o quadro clínico de tal intoxicação não seja compatível com o do Chapeleiro Maluco: no hidragirismo é mais comum encontrar confusão mental (como desorientação proveniente de sonolência) nos quadros agudos, e timidez excessiva, perda de autoconfiança, irritabilidade, alterações do humor, labilidade afetiva, insegurança, desânimo, insônia, falta de atenção e dificuldade de concentração nos casos crônicos, o que fala contra a hipótese de o Chapeleiro sofrer desse problema realmente (III).

As referências, trocadilhos, brincadeiras e simbolismos presentes nos dois livros Alice são praticamente inesgotáveis. Uma das melhores obras em português para destrinchá-las é a edição comentada publicada pela Jorge Zahar. Além dela, a extensa biografia de Lewis Carroll feita por Morton Cohen e publicada pela editora Record também é recomendável para quem quiser entender melhor esse que foi um dos autores mais influentes de todos os tempos.

(I) Podoll K, & Robinson D (1999). Lewis Carroll’s migraine experiences. Lancet, 353 (9161) (II) O’Carroll, R., Masterton, G., Dougall, N., Ebmeier, K., & Goodwin, G. (1995). The neuropsychiatric sequelae of mercury poisoning. The Mad Hatter’s disease revisited The British Journal of Psychiatry, 167 (1), 95-98 DOI: 10.1192/bjp.167.1.95 (III) Price, T. (1984). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? BMJ, 288 (6413), 324-324

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Written by Daniel M Barros

25/04/2010 às 4:10 PM

4 Respostas

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  1. Muito legal o teu post. As questões sem respostas por trás de “Alice” sempre me intrigaram. Lewis Carrol não é só um pseudônimo, é um personagem. Mas isso é papo pra psicanálise…
    Belo blog. Estarei aqui mais vezes diretamente do Blogger-space.

    Claudinha

    25/04/2010 at 9:46 PM

  2. Muito interessante o seu blog, Daniel. Tive a grata satisfação em ler algo interessante e bem-escrito. Há realmente muito da neurologia e da psiquiatria na obra de Lewis Caroll.Sucesso! Passarei por aqui mais vezes.

    Aline Dranka

    17/07/2010 at 8:35 PM


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