Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Apenas “humanos” de Dr. House a Homer Simpson

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Minha esposa não gosta muito que eu assista ao seriado House. Acho que ela teme que eu me inspire nele.

Para os que não sabem, o Dr. Gregory House é um médico muito, muito inteligente, capaz de fazer os diagnósticos mais difíceis e curar os doentes mais improváveis, mas que no meio do caminho desdenha de maneira deliberada dos sentimentos de seus pacientes, atropela qualquer coisa que se assemelhe à ética e personifica a misantropia.

O ator Hugh Laurie levou o Globo de Ouro de melhor ator duas vezes, além de receber mais de vinte indicações a outros prêmios por interpretar com perfeição o personagem, que de tão carismático leva praticamente sozinho o seriado. O que o torna tão envolvente é que suas características humanas – que todos temos – são levadas a extremos: enquanto nós às vezes achamos nossos colegas menos capazes, ele sempre os humilha exibindo sua superioridade. Se nós deixamos de lado algumas regras por achar que elas mais atrapalham do que ajudam, ele as despreza todos os dias – e mais do que criar as suas próprias, age como se não existisse nenhuma lei entre ele e seus objetivos. E se todos agimos de vez em quando baseados mais nos nossos interesses do que no bem coletivo, House simplesmente não sabe o que significa essa última expressão. A ambiguidade do personagem se dá porque, embora sua motivação seja altamente egoísta, o fim acaba sendo sempre ajudar o próximo. Ainda que por vaidade, o que ele quer é salvar vidas. Ele é a quintessência do anti-herói pós-moderno: não só faz coisas boas apesar de suas falhas, ele as faz por causa de seus defeitos.

O que você prefere, um médico que te trate bem ou que salve sua vida?, ele parece perguntar a cada episódio. A resposta não é simples: primeiro porque mais cedo ou mais tarde a morte sempre vence, e o que se quer nessa hora é simplesmente ser bem tratado (mas nós nunca queremos que essa hora chegue; e se ser mal tratado for o preço para adiá-la?). Além disso, o conceito “salvar a vida” é muito restrito quando os episódios duram menos que uma hora: nos casos de emergências muitas vezes resolve-se a queixa aguda e o paciente tem alta apenas para morrer um mês depois (o que não aparece na série). Esses trinta dias a mais de vida valeram os maus-tratos do médico? É isso a questão é pertinente: a ausência de uma resposta fácil.

Por isso que acho ingênuo o ponto de vista do recente artigo que analisa a ética dos seriados (I). Após avaliar o conteúdo de 46 episódios de séries médicas (House e Grey´s anatomy), foram detectadas 179 questões éticas, desde o consentimento do informado para transplante de órgãos até a sonegação de informações para o paciente. (Em Grey´s anatomy o principal problema encontrado foi o grande número de relacionamentos sexuais entre os profissionais de saúde em contexto inadequado – 58 casos – além de 27 relações entre um profissional e um paciente).

Para mim, dizer que o Dr. House é antiético é como dizer que o Homer Simpson é burro: simplesmente aponta a característica que melhor define o personagem e que o torna tão humano e fascinante.

ResearchBlogging.org (I) Czarny, M., Faden, R., & Sugarman, J. (2010). Bioethics and professionalism in popular television medical dramas Journal of Medical Ethics, 36 (4), 203-206 DOI: 10.1136/jme.2009.033621

Written by Daniel M Barros

20/04/2010 às 8:39 PM

Publicado em Uncategorized

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