Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O McDonald’s do emagrecimento

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Novamente a obesidade é notícia: a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) modificou as regras para a venda de medicamentos para emagrecer.

Os remédios anorexígenos, como indica a etimologia da palavra (do grego: “a”, partícula de negação; “óreksis”, tendência para, desejo de, apetite; e “gênese”, que cria), têm a função de gerar uma perda de apetite e, por consequência, levar à menor ingestão de calorias e ao emagrecimento. Os principais são os catecolaminérgicos, como a amfepramona, e os de ação combinada, como a sibutramina (I). Os primeiros reduzem o apetite, levando a pessoa a ter menos comportamentos de ingesta alimentar, enquato o último aumenta a sensação de saciedade, levando a pessoa a parar de comer mais rápido (II).

O que provocou a Anvisa a agir foi proibição da venda de sibutramina na Europa. Por conta de riscos cardiológicos que a droga traz para pacientes obesos e já com alterações como pressão alta, a agência europeia baniu o medicamento. Há muita controvérsia com relação aos dados que levaram a tal medida, já que os pacientes analisados tinham probabilidade de doenças cardíacas de qualquer forma, mas diante da notícia e do número absurdamente alto de receitas no país a agência brasileira elevou a barreira para a prescrição, exigindo receituário controlado.

Verdade, contudo, é que a medida tem jeito de inútil. Isso porque os medicamentos anfetamínicos, por terem risco de abuso, já sofriam esse controle maior, e tal fato não impediu o Brasil de deter o recorde mundial – mundial – de prescrição de tais drogas.

O problema me parecer ser outro: a confluência da cultura do corpo com a busca por resultados imediatos. A sociedade tem estimulado a pressa de tal forma que pesquisa a ser publicada esse semestre mostrou que indivíduos expostos a símbolos de lanchonetes fast-food por milissegundos, sem terem consciência do que viram, tornaram-se imediatamente mais apressados (III).

Se o intuito é reduzir as prescrições, tenho poucas dúvidas que os desejos imediatistas somados à utopia de beleza num país onde o corpo é exposto continuamente tem tudo prevalecer diante do mero controle de receitas .

(I)Bellaver, L., Vital, M., Arruda, A., & Bellaver, C. (2001). Efeitos da dietilpropiona, energia da dieta e sexo sobre o ganho de peso corporal, peso dos órgãos e deposição de tecidos em ratos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 45 (2) DOI: 10.1590/S0004-27302001000200008 (II)Finer N (2002). Sibutramine: its mode of action and efficacy. International journal of obesity and related metabolic disorders : journal of the International Association for the Study of Obesity, 26 Suppl 4 PMID: 12457297 (III) Chen-Bo Zhong, Sanford E. DeVoe (2010). You Are How You Eat: Fast Food and Impatience Psychological Science

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Written by Daniel M Barros

31/03/2010 às 11:00 AM

5 Respostas

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  1. Eu também estou cética quanto a esta regulação. Até porque as especialidades que mais prescrevem as anfetaminas não são as que lidam com saúde mental ou endocrinologia, mas pediatras (!), ginecologistas (!!) e outras. É comum vermos ortopedistas prescrevendo femproporex no Brasil. Cansei de atender pacientes no Brasil que queriam que eu lhes repetisse a prescrição de ginkgo biloba a x% mais um monte de ervas que só servem para encher linguiça, mais diazepam 5mg ou outro ansiolítico e femproporex. Não adiantava explicar.. eu sabia que saindo do consultório eles marcariam consulta com outro para conseguir a receita.

    Vanessa Marsden

    31/03/2010 at 9:22 PM

    • E pode crer que as coisas não mudaram na sua ausência… é assim também no velho continente?

      Daniel M Barros

      31/03/2010 at 11:40 PM

  2. Desde os primórdios há o culto à beleza, a diferença das gerações são os ditos “corpos ideiais” que mudam de geração para geração….

    Seria utópico demais querer que os “médicos” que receitam estes remédios indiscriminadamente fossem apenados????

    Ka

    01/04/2010 at 4:07 AM

  3. As anfetaminas anorexigenas sao proibidas na Europa. O uso de sibutramina ‘e raro. O estado portugues subsidia os medicamentos e o custo ‘e bem baixo, mas mesmo assim este abuso nao ocorre. Abuso de benzodiazepinas, por outro lado, ocorre (mas isso ‘e uma epidemia no mundo todo).
    Na Inglaterra o orlistat ‘e de venda livre em qualquer farmacia, e o farmaceutico mesmo confere se ha ou nao necessidade do medicamento (o farmaceutico pode se negar a vender). A sibutramina ‘e raramente utilizada, embora haja um movimento para popularizar estes medicamentos (dai o orlistat ser livre) devido ao alto nivel de obesidade na populacao inglesa.

    Vanessa Marsden

    01/04/2010 at 4:46 PM

  4. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by danielmbarros: O McDonald’s do emagrecimento: http://wp.me/pNBp1-2K


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