Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Nardoni, os bruxos da vez

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Desde que a garota Isabella Nardoni foi encontrada morta, mais de seiscentas crianças menores de um ano foram assassinadas, na maioria dos casos por seus pais. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de três crianças abaixo de um ano morrem por dia em razão de “causas externas”, e a literatura científica estima que um terço dessas causas externas sejam homicídios (I). Ou seja, mais ou menos um bebê assassinado por dia no país, o que se assemelha a dados internacionais (II).

Por que então Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni são tão hostilizados, qual a razão de tanta mobilização em torno desse caso?

Muitas explicações podem ser dadas, mas para mim a reação da população diz mais sobre nós mesmos do que sobre os acusados.

A estratégia de transformá-los em dois monstros, desprovidos de alma, cumpre o papel muito claro de afastá-los de nós: formam-se dois lados, eles lá, e nós aqui, numa divisão inquestionável e intransponível. Fazer isso é uma maneira de se fugir de sentimentos que todos temos mas que nos amedrontam demais: seria eu assim tão diferente? Será que, num desses acessos de raiva que tenho vez por outra, não corro o risco de fazer algo atroz? Será que eles não estavam numa daquelas situações que de vez em quando dão vontade de matar alguém que nos tira do sério? Quando pensamos assim nos identificamos com eles, o que pode ser intolerável. Daí, a reação de demonizá-los é tranquilizadora; afinal, eu não sou um demônio, logo, não sou como eles. Tal qual na época da caça às bruxas, em que algumas mulheres se tornavam o depósito de todo o mal da sociedade, expiado na fogueira em que elas ardiam, lançamos sobre os Nardoni esse nosso lado sombrio, e os entregamos à justiça.

É óbvio que nada disso ameniza a gravidade do crime; não modifica a atrocidade do ato; não serve de desculpa nem atenuante. Quem cometeu o homicídio deve pagar pelo que fez, sejam eles ou não. Essas considerações só vêm a propósito de colocar nossa própria reação em perspectiva: um crime que ocorre literalmente todos os dias no país não pode estar tão longe de nós como gostaríamos para dormir em paz.

ResearchBlogging.org(I)McClain PW, Sacks JJ, Froehlke RG, & Ewigman BG (1993). Estimates of fatal child abuse and neglect, United States, 1979 through 1988. Pediatrics, 91 (2), 338-43 PMID: 8424007 (II)Overpeck MD, Brenner RA, Trumble AC, Trifiletti LB, & Berendes HW (1998). Risk factors for infant homicide in the United States. The New England journal of medicine, 339 (17), 1211-6 PMID: 9780342

Written by Daniel M Barros

22/03/2010 às 3:36 PM

Publicado em Uncategorized

8 Respostas

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  1. Muito bom!!!

    M.Silvia

    22/03/2010 at 4:14 PM

  2. Muito bom o texto! Os que trabalham com a interface do crime sabem que esse caso é emblemático, entretanto poucos são aqueles que colocam a discussão partindo do principio que o casal Nardoni percentem a espécie Homo sapiens.
    Frase que ouvi do Francisco da Costa Rocha: “Todos temos um Lobo e Cordeiro dentro de nós”

    Leandro C S Gavinier

    22/03/2010 at 9:47 PM

  3. Boa análise, mas creio que tem mais uma coisa. A mídia entrou num frenesi absurdo em busca de “novidades bombásticas” sobre o caso. Qualquer ida ao banheiro dos Nardoni na prisão é passível de se tornar uma manchete! Os noticiários entregam qualquer notícia irrelevante sobre eles e sem qualquer tipo de análise. Jornalismo barato. Estão nos alimentando com farelo ralo. A população aceita enfeitiçada a coisa e, por sua vez, alimenta mais ainda a fome da mídia por notícias inúteis. Inúteis e efêmeras.

    Joel Pinheiro

    23/03/2010 at 4:19 PM

  4. é uma forma da sociedade lidar com a culpa que todos temos em casos de vitimização infantil.

    Valéria

    25/03/2010 at 6:03 PM

  5. Realmente, precisamos tanto desses montros, que a mais remota possibilidade deles serem inocentes nos causa indignação, por mais irrefutáveis que as provas possam ser.

    Leite

    27/03/2010 at 12:23 AM

  6. Daniel, parabéns não apenas por este post como pelo blog, que venho acompanhando regularmente. O velho Freud mostra que continua vivo pra quando a gente precisa entender o inconsciente. A mídia, por sua vez, banaliza a violência alimentando os bichos famintos que vivem nos nossos porões. Abr.

    Ercy

    27/03/2010 at 10:52 PM

  7. Muito lucido, mas eu torci para que fosse inocentes de fato pois me causou especie saber que o pai foi capaz de jogar a filha. Eu fiz estes questionamentos, pois isso acontece muito em situaçoes de transito, as pessoas viram bicho no vlnate. Poderias fazer uma analise idsto tambem.

    Lenise

    30/03/2010 at 10:45 PM

  8. É exatamente essa a minha opinião sobre a histeria coletiva em torno deste caso. A mobilização geral é assustadora.
    Em momentos assim, a gente chega a se impressionar com a quantidade de opiniões, com a eloquência e com o senso de justiça que na maior parte do tempo parecem não existir, dada a resignação geral das pessoas.

    Ana Muniz

    03/04/2010 at 1:37 AM


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