Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O assassinato do Glauco – loucura, drogas e religião

with 6 comments

[tweetmeme]
Eu já não via muita graça nas tirinhas diárias do Glauco; para mim apenas suas charges políticas conseguiam manter humor e inteligência. No entanto, seu personagem mais famoso, o Geraldão, acabou por se tornar um símbolo de quem viria a matá-lo.

Retratado segurando bebida, cigarro e com múltiplas seringas pelo corpo, Geraldão encarnava o homem que, escravo de suas compulsões, tinha as possibilidades da vida esvaziadas: não trabalhava, morava com a mãe, solteiro, ressentia-se de ainda ser virgem. Nada construíra na vida. Esse estado lastimável ser mostrado pela via da comédia não reduzia a acidez da crítica.

O homem acusado de matá-lo, ao que consta, ironicamente tem uma vida parecida: não trabalha, não estuda e tem dificuldade em deixar o vício da cocaína; a procura pela religião da qual Glauco era bispo supostamente foi motivada pela tentativa de parar com a droga.

Um problema adicional emerge aqui: declarações do irmão do acusado dão conta que ele teria entrado em surto após o uso do chá de Ayahuasca. Pode não ter sido exatamente assim, mas é sabido que as substâncias presentes no chá têm o risco de induzir quadros psicóticos, ainda que na maioria dos casos transitórios (I). Seu uso importado de ritos indígenas pelas regiões urbanas em seitas sincréticas ainda carece de uma melhor compreensão quanto aos seus riscos, já que é outro o contexto original da bebida e outras as demandas que movem os que a utilizam (II).

Independentemente da causa, se o assassino estava de fato psicótico, dizendo-se Jesus Cristo e com comportamento alterado, como foi descrito, provavelmente será considerado inimputável pela lei: o Código Penal diz que os transtornos mentais, se alterarem o entendimento ou autocontrole do indivíduo, isentam-no de pena; esta é substituída por “medida de segurança”, usualmente tratamento compulsório ambulatorial ou sob internação. Há quem considere isso injusto, pois quem usa drogas não pode ter nisso uma desculpa para seus atos. Verdade. Mas muitas vezes a história não é tão simples: algumas pessoas simplesmente não conseguem evitar a utilização das drogas, sendo consideradas doentes. Se tais substâncias – usadas por incontrolável compulsão – induzirem em alguém um estado psicótico, dificilmente tal sujeito será responsabilizado, ao menos totalmente, por seus atos (III).

Há três questões envolvidas nesse caso muito mais complexas do que parecem à primeira vista. O uso do chá toca no ponto liberdade de culto versus liberação de drogas (ainda que rituais); a busca pela religião, por sua vez, envolve o problema do tratamento extramedicinal da dependência química; e o fato de o assassino estar psicótico levanta o dilema da responsabilidade penal dos drogaditos.

Independente dos desdobramentos futuros, contudo, fica o lamento. Por todos, pois o desfecho trágico mostra que dos dois lados as vidas foram roubadas.

Research Blogging Awards 2010 Finalist(I)Gable, R. (2007). Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids Addiction, 102 (1), 24-34 DOI: 10.1111/j.1360-0443.2006.01652.x (II) Costa, M., Figueiredo, M., & Cazenave, S. (2005). Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico Revista de Psiquiatria Clínica, 32 (6) DOI: 10.1590/S0101-60832005000600001 (III) Chalub, M., & Telles, L. (2006). Alcohol, drugs and crime]] Revista Brasileira de Psiquiatria, 28 DOI: 10.1590/S1516-44462006000600004

Written by Daniel M Barros

14/03/2010 às 6:04 PM

6 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. […] Fonte: Psiquiatria e Sociedade […]

  2. Só quem conhece as tiras do Geraldão sabe que essa analogia falaciosa foi absurda.
    As características do personagem mais famoso do Glauco não tem nehuma relação direta com esse comportamento homicida.

    Denis

    16/03/2010 at 3:28 PM

    • A descrição do Geraldão no site oficial é: “O principal personagem do Glauco é um consumidor inveterado de uns 30 anos, solteiro que mora com a mãe – com quem tem uma relação neurótica- e continua virgem até hoje. Geraldão bebe, fuma muito, vive atacando a geladeira e toma todos os remédios que vê pela frente”. Realmente não tem nenhuma relação com homicídio, mas consigo ver pontos em comum com o homicida em questão.

      Daniel M Barros

      16/03/2010 at 3:41 PM

    • Eu também já não me interessava pelo trabalho do Glauco há um bom tempo. Mesmo assim posso dizer que Geraldão muitas vezes é até “pior” do que a referida descrição. Mas ter a referência dessa simples descrição é muito distante de entender a amplitude do personagem e fazer essa comparação. Pode ser até divertido, junguiano, etc., mas por uma falácia.

      Geraldão é análogo ao seu próprio criador, não ao assassino de seu criador. É uma caricatura de uma representativa parcela dos homens e até de mulheres! Procurando dessa forma, encontro analogias com várias pessoas – até com o nosso excelentíssimo presidente – e muitas delas bem mais próximas do Geraldão do que o homicida em questão.

      No caso em discussão, a semelhança do histórico (conhecido) do homicida, com essa descrição do personagem de Glauco, é limitada apenas e somente ao consumo de drogas e ao estado civil. O criminoso provavelmente não é virgem. Aparentemente tinha uma vida obscura, mas ativa. Considere também as circunstâncias da execução, a premeditação do homicídio e a fuga mirabolante. Atos geralmente praticados por pessoas com características bem diversas a expressão, ao comodismo e as paranóias cotidianas do Geraldão.

      Enfim, para quem “conhece” o Geraldão, uma história em que ele mata alguém, e ainda mais dessa forma, nunca faria sentido. A analogia fica vazia e desconexa. Mas para quem não conhece, talvez seja bacana mesmo.

      No mais, parabenizo o site, sempre bem redigido, e com esse saudável espaço para a discussão.

      Denis

      16/03/2010 at 11:22 PM

  3. Concordo inteiramente e apresento efusivos parabéns por essa brilhantíssima analogia entre o assassino do cartunista e o personagem Geraldão.
    Simbolicamente, Glauco Villas Boas pode ser dito assassinado pelo próprio personagem!!! Bravíssimo e altamente junguiano!!!

    Nicolau

    16/03/2010 at 6:03 PM

  4. Pois eu achei muito interessante a analogia…! Quem trabalha com dependências convive com muitos Geraldões no seu dia-a-dia. Claro que nem todo Geraldão é dependente, nem todo dependente é psicótico, nem todo psicótico é violento, nem todo violento é assassino, mas de fato é uma trágica ironia!

    Marilia Castello Branco

    16/03/2010 at 6:11 PM


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: