Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Loucas letras

leave a comment »

[tweetmeme]
Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, a primeira descrição da Demência de Alzheimer (1) – numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por benção revela-se uma verdadeira maldição: as pessoas envelhecem, envelhecem e seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo sua vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift.

Esse é apenas um dos muito exemplos de que a literatura tem uma profunda relação com a Psiquiatria, aliás, numa via de mão dupla.

Lançado esse ano, o livro Aqueronte, o rio dos infortúnios, da jornalista Cláudia Belfort, adentra essa mata densa da interface entre as letras e a loucura. E loucura é o termo correto – na acepção foucaultiana do termo, abarcando não apenas os pacientes com transtornos mentais, mas os desajustados e marginais, interrelacionando pessoas e patologias, desajustes e sofrimentos. Como um de seus personagens, a autora se inspira em figuras reais, utilizando não os fatos brutos, mas suas “íntimas sutilezas” para acender uma lanterna em meandros escuros da existência. As descrições vão de uma internação psiquiátria à narrativa da morte do ponto de vista do próprio moribundo, passando por um escritor deprimido e sua personagem em crise, pela genética e pela sociedade.

Obras assim são muito bem vindas, pois mesmo o sisudo mundo acadêmico tem se voltado para a importância da literatura para a medicina em geral – psiquiatria em particular – como atesta o editorial “Literature and Psychiatry”, de 2002, publicado no Pychiatric Bulletin pelo professor da Universidade de Birmingham, Femi Oyebode (2). Com atraso, na verdade, pois em 1907 Freud já dissera que “o escritor criativo não pode esquivar-se do psiquiatra, nem o psiquiatra esquivar-se do escritor criativo”. Mais claro, impossível.

ResearchBlogging.org
(1)Boller, F. (1998). History of dementia and dementia in history: An overview Journal of the Neurological Sciences, 158 (2), 125-133 DOI: 10.1016/S0022-510X(98)00128-2
(2)Oyebode, F. (2002). Literature and psychiatry Psychiatric Bulletin, 26 (4), 121-122 DOI: 10.1192/pb.26.4.121

Anúncios

Written by Daniel M Barros

16/02/2010 às 10:19 PM

Publicado em Uncategorized

Tagged with , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: