Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Certo ou errado com ou sem Deus

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Mais lenha acaba de ser adicionada à fogueira acesa por Dostoievski: seria verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido?

Essa semana uma cientista finlandesa e um americano publicaram um artigo comentando diversos estudos sobre psicologia moral e religião, argumentando que a moralidade é independente da (e anterior à) religiosidade.

Para variar, minha opinião tem tudo para desagradar os dois lados.

Como comentado em post anterior, até os ratos sabem o que é certo – existe um senso de cooperação, que é um dos componentes da ética, em animais muitíssimo anteriores na escala evolutiva, que não têm qualquer esboço de religiosidade (a não ser que O guia do mochileiro das galáxias seja não-ficção). Logo, me parece evidente que elementos cognitivos nos trazem um senso de certo e errado muito antes de haver crenças religiosas.

No entanto, não é possível a um observador (tentanto ser) neutro negar outro fato:  desde a Grécia antiga já vigia como parâmetro ético a Regra de ouro, “não faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você”, regra presente com diferentes formulações nas mais diversas culturas. O advento do cristianismo, contudo, elevou o patamar moral ao transformar o princípio que era passivo – não fazer algo – em ativo: faça para os outros o bem, independente de seus méritos (“ama o teu inimigo”). Muitos não entendem que “amar” não significa gostar ou ter apreço (o que tornaria essa máxima puro non sense)  mas quer dizer trabalhar ativamente para o bem de todos, independente dos seus méritos. Tal princípio foi de tal forma enraizado na cultura ocidental que mesmo os que buscam uma ética ateia não podem prescindir deste aspecto pró-ativo da moral.

Ou seja, a mim me parece claro que moralidade, lato sensu, é anterior à religião, fincada evolutivamente em nosso cérebro dadas as vantagens de sobrevivência grupal que nos trouxe. A nossa moral coletiva, no entanto,  nosso senso ético,  já não é separável da influência religiosa, sejamos crentes ou não.

ResearchBlogging.org
Pyysiäinen, I., & Hauser, M. (2010). The origins of religion : evolved adaptation or by-product? Trends in Cognitive Sciences DOI: 10.1016/j.tics.2009.12.007

Written by Daniel M Barros

10/02/2010 às 10:47 AM

2 Respostas

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  1. Gostaria de saber qual é essa tal de “escala evolutiva” e quem a “escalonou”.

    Eli Vieira

    04/03/2010 at 7:05 PM

    • Escala aqui não tem um caráter hierárquico, mas temporal, por isso usei “anteriores na escala”, e não “inferores”. Afinal, os ratos estão aí há mais tempo que nós.

      Daniel M Barros

      04/03/2010 at 7:20 PM


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