Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

A tragédia do preconceito

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Há um velho debate sobre se as tragédias geradas pelas catástrofes naturais são meras fatalidades ou se as vítimas carregam algum grau de culpa.

Pelos menos desde o século XVIII tenta-se equalizar tal questão: em 1755, após o terremoto que destruiu Lisboa, os filósofos Voltaire, que via ali uma prova da ausência da providência divina, e Rousseau, para quem a tragédia era fruto não do terremoto em si (e menos ainda de Deus), mas da forma de ocupação urbana – se os lisboetas não estivessem tão amontoados, talvez nada de pior teria acontecido – trocaram rusgas públicas em torno do fato. Modernamente o debate se amplia, incluindo os poderes públicos entre os responsáveis, quer por não regularem de forma adequada a urbanização, quer por serem omissos nas medidas preventivas.

Um estudo publicado em livro no final do ano passado mostra que nossos preconceitos podem explicar sobre quem colocamos a culpa. (Discrimination Against Out-Group Members in Helping Situations: Donald A. Saucier, Jessica L. McManus, and Sara J. Smith In: The psychology of prosocial behavior : group processes, intergroup relations, and helping, 2009)
Tendo como base as vítimas do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans em 2005, cientistas descobriram que as pessoas com mais traços racistas tendiam a colocar mais culpa sobre as próprias vítimas, além de considerar adequado o auxílio dado pelo governo e não achar que mais ajuda era necessária. Os pesquisadores interpretaram os resultados à luz da teoria do efeito de grupo: todos nós tendemos a ajudar mais àqueles que consideramos pertencentes ao nosso grupo e fazer menos força para amparar os que são “de fora”. E como quanto mais racista é a pessoa, menor é o “seu” grupo, sua tendência a subestimar a necessidade de ajuda envolverá um maior número de pessoas.

A questão sobre quem responsável nesses casos deve durar mais uns bons séculos. Mas se ampliarmos nossos horizontes, considerando todo ser humano – e no limite, todo ser vivo – como pertencente ao nosso grupo, no mínimo estaremos mais dispostos a ajudá-los diante das catástrofes inevitáveis.

ResearchBlogging.org
Donald A. Saucier, Jessica L. McManus, and Sara J. Smith (2009). Discrimination Against Out-Group Members in Helping Situations In: The psychology of prosocial behavior : group processes, intergroup relations, and helping

Written by Daniel M Barros

06/02/2010 às 12:15 PM

Publicado em Uncategorized

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