Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

Os ratos sabem o que é justo

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A moralidade é um tema difícil de ser científicamente estudado, já que o viés cultural envolvido é enorme. O que é certo em um lugar é errado em outro, e dentro de um mesmo lugar as coisas mudam ao longo do tempo. O imoral ontem é permitido hoje – e amanhã pode vir a ser obrigatório.

Jonathan Haidt, da Universidade de Virgínia, se propôs a desenvolver uma teoria dos fundamentos da moral (www.moralfoundations.org), e encontrou cinco domínios que diferenciam o certo do errado para os seres humanos, provavelmente selecionados ao longo da evolução por nos permitirem chegar até aqui (Haidt J. The new synthesis in moral psychology. Science, 316, 998-1002):

1-Dano e cuidado, 2-Justiça e reciprocidade, 3-Lealdade intragrupo, 4-Respeito pela autoridade, 5-Pureza e santidade.

Parece lógico que quem não praticava cuidados, não era leal, não evitava sujeira e assim por diante, foi ficando pelo caminho, sobrevivendo os que tinham tais comportamentos.

Dentre esses fatores, o segundo acaba de ser identificado em mamíferos bastante distantes de nós, humanos.

Neurocientistas portugueses mostraram que ratos aprendem a cooperar entre si, evitando punições e aumentando suas recompensas (Viana DS, Gordo I, Sucena E, Mota M. Cognitive and Motivational Requirements for the Emergence of Cooperation in a Rat Social Game PLoS One. 2010; 5:e8483).Utilizando o modelo da teoria dos jogos conhecido como tit for tat, algo como “pagar na mesma moeda”, descobriram não apenas que os ratos logo começavam a cooperar, em vez de competir, mas que guardavam na memória o comportamento anterior do seu oponente e qual a consequência para ele mesmo, ajustando sua atitude em função dessas variáveis. Ou seja, o senso de justiça e reciprocidade é útil há muito mais tempo do que se imagina, fincando raízes biológicas em nossos comportamentos desde as priscas eras.

No filme de 1970 “O garoto selvagem”, de François Truffaut, um cientista assume a educação de uma criança encontrada na selva, e num determinado momento pune-o por uma tarefa realizada adequadamente, apenas para ver se ele se sentiria injustiçado. Sua revolta convence o pesquisador de que, mesmo tendo crescido entre animais, existe nele um senso de justiça.

É por isso que mesmo nós, que por vezes agimos como verdadeiras bestas feras, sabemos quando pisamos na bola.

ResearchBlogging.org
Haidt, J. (2007). The New Synthesis in Moral Psychology Science, 316 (5827), 998-1002 DOI: 10.1126/science.1137651

Viana DS, Gordo I, Sucena E, & Moita MA (2010). Cognitive and motivational requirements for the emergence of cooperation in a rat social game. PloS one, 5 (1) PMID: 20084113

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Written by Daniel M Barros

03/02/2010 às 11:29 AM

Publicado em Uncategorized

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