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A verdade e Pirandello

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Se eu tinha alguma dúvida, não tenho mais: Pirandello é mesmo meu autor favorito. Acabo de ler a peça Assim é (se lhe parece) e fiquei fascinado.

Conta a história de um funcionário novo que chega à cidade após um terremoto ter destruído completamente seu vilarejo. Ele vem com a esposa e a sogra, e o trio é cercado de mistérios, pois a mulher fica dia e noite trancada no alto de um prédio, só falando com a mãe pela janela. Os habitantes da cidade põe-se em polvorosa tentando descobrir as razões daquele arranjo tão singular, girando a peça inteira em torno das especulações e maquinações mil que se fazem para descobrir a verdade.

A primeira explicação é dada pela sogra, que diz que o genro a impede de ver a filha. “Ah, que cruel”, dizem todos. Na sequência vem o genro e diz que a sogra é louca, que não sabe que a filha morreu, mas que mantém a farsa para poupá-la. “Ah, que bondoso”, pensam. Contudo a sogra retorna e diz que sabe que o genro diz que ela é louca, e só não contesta para não criar um caso ainda maior. E assim “a verdade” parece estar sempre fugindo entre os dedos dos personagens, que a cada conversa ficam mais confusos. Apenas Laudisi, o cunhado impertinente, parece se divertir com a situação, justamente porque acredita ser impossível chegar à tal verdade, afirmando que cada um tem a sua versão, ambas “verdadeiras” para eles. Resignado, não sofre com a angústia da incerteza que aflige os outros.

É uma lição e tanto. Na prática clínica somos o tempo todo desafiados a chegar à verdade do que está acontecendo com o paciente, mesmo com informações incompletas. Imagine como isso é dificultado quando estamos falando de psiquiatria, onde a subjetividade impera. E ainda mais quando investidos do papel de peritos, com a função de produzir provas para a justiça (a prova pericial). Como na peça, a cada consulta a verdade parece ir de um lado para outro, dançando entre as versões sem parar em lugar algum. E é um exercício constante avaliar se conseguiremos chegar a algum lugar ou se teremos nós também que nos resignar com a dúvida angustiante.

A certa altura da história o prefeito é chamado a intervir, e impõe sua autoridade de forma violenta sobre o misterioso homem, mesmo já estando ele mortificado por tanta especulação sobre sua vida. Desnecessário dizer que é uma violência inútil para se chegar à verdade. E esse risco nós também corremos: obstinados em sair da incerteza utilizarmos nosso lugar de poder para devassar a vida e alma de pessoas, não raro inutilmente.

O debate sobre o tema é extenso e não admite respostas fáceis. O que eu acho é que estamos todos até hoje perplexos diante da pergunta de Pilatos: “Que é a verdade?” (que nem Jesus respondeu).

Written by Daniel M Barros

06/07/2011 at 11:04 AM

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