Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

O alívio do fim das férias

with 9 comments


Um slogan muito divertido, da Continental Airlines se não me engano, afirma de forma acertada que ninguém diz “Ah, eu tiro férias demais”. De fato, sempre achamos que poderíamos ter mais férias, trabalhar menos, “viver mais”.

O que eu percebo em todas as vezes que tiro férias é que “vida” e “férias” não são palavras que facilmente se associem. Isso porque as férias são uma exceção, uma pausa; são os parênteses da vida real. (E os parênteses, como estes aqui, interrompem o fluxo natural do texto. Eles fazem parte do que se está dizendo, mas ficam meio de lado. São importantes para o todo, mas dispensáveis para a leitura corrente). A vida para valer ocorre mesmo é na rotina. Na repetição cotidiana das mesmas atividades, nos mesmos horários, com as mesmas pessoas, pelos mesmos caminhos. E embora nós adoremos reclamar disso, a verdade é que se não fosse a rotina nós viveríamos extenuados.

Quando estamos inseridos na rotina, fazendo coisas que estamos mais do que acostumados, gastamos muito menos energia. É como quando se aprende a dirigir, tocar um instrumento ou até amarrar os sapatos: no início temos que prestar muita atenção, o córtex cerebral nos leva a atentar a cada detalhe, gastando um bocado de energia. Quando a tarefa se torna automática passa a ser tocada por regiões mais profundas do cérebro, sem exigir tanto esforço e poupando esforço mental. É por isso que aprender cansa mais do que praticar.

E é por isso que as férias também cansam: sobretudo em viagens, a ausência de rotina faz com que tenhamos que decidir a cada dia, a cada hora, o que fazer, para onde ir, onde comer, tendo que descobrir novos caminhos e tomar novas decisões constantemente. É o que faz do viajar uma experiência tão rica, mas não se pode negar que cansa. O fim das férias, então, trazendo de volta a rotina, paradoxalmente acaba sendo um descanso.

E para não se entediar no dia-a-dia, lembro da receita do filme “O feitiço do tempo” (“O dia da marmota”, no título original). O protagonista fica preso no tempo, condenado a reviver um mesmo dia numa repetição ad infinitum. Ele entra em desespero tentando de todas as formas quebrar a maldição, mas é só quando começa a usar a previsibilidade de sua condição em favor de uma vida melhor, aprendendo piano, ajudando as pessoas e conquistando um verdadeiro amor, que ele se liberta. E não é o mesmo que ocorre conosco? Acordamos à mesma hora, vemos as mesmas pessoas, falamos dos mesmos assuntos, voltamos para mesma casa e nos desesperamos com tanta monotonia. Mas se conseguirmos extrair o melhor dessa rotina, em vez de nos entediarmos estaremos apenas poupando energia para gastar nas próximas férias.

About these ads

Written by Daniel M Barros

12/01/2011 at 10:59 AM

9 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. “A vida para valer ocorre mesmo é na rotina”.

    Assustadora verdade.

    Daniel,

    A ausência de férias também é um porre, e uma imprudência. A vida precisa desses pequenos parênteses… De qualquer forma, seja bem vindo (se é que eu entendi que vc estava de férias).

    Estou lendo um livro (“A Million Miles in a Thousand Years”) de um autor chamado Donald Miller. Neste livro, ele é convidado a editar a própria biografia para fazer um roteiro para um filme. E então ele é constrangido com a verdade de que a vida é chata, e rotineira e é cheia de planícies. Ele aprende (mesmo sendo autor de outros livros) que filmes e livros apenas criam ou mostram os momentos-chave de uma vida, mantendo o interesse do leitor/espectador em alta. Na vida normal, ele sairia para um café várias vezes ou tiraria uma soneca. Bom livrinho.

    Um abraço, seja bem-vindo.

    Andre Bressan

    13/01/2011 at 8:49 AM

  2. Vc esqueceu de pensar que um grupo de pessoas que muitas vezes anseia pelo fim das férias são os pais… :)

    Férias significa trabalho em dobro… pelo menos para quem fica em casa com as crianças… :)

    Andre Bressan

    13/01/2011 at 8:53 AM

  3. Queria saber como posso ter sua autorização pra publicar seu texto, com os devidos créditos,num site. Obrigada!

    Samysia

    13/01/2011 at 4:07 PM

    • Está autorizada – só peço que depois deixe aqui também o endereço, ok? Um abraço.

      Daniel M Barros

      13/01/2011 at 4:35 PM

  4. Olá, o texto foi publicado aqui: http://www.vivaviver.com.br/escritos/o_alivio_do_fim_das_ferias/1003/ Obrigada pela autorização!

    Samysia

    24/01/2011 at 10:39 AM

  5. Que original e bem escrito, Daniel. Gostei muito, parabéns (descobri via Don’t touch my moleskine).
    Aquele Abraço,
    Helê

    dufas

    24/01/2011 at 3:47 PM

  6. Nao conhecia seu site, estou lendo alguns textos, bacana este … e como me disse meu filho estes dias, voltando de uma viagem, ser turista da um sono!!!

    Graca

    23/07/2011 at 11:31 PM


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 855 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: