Psiquiatria e Sociedade

Mente, cérebro e gente

WikiLeaks, mentiras e fofocas

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O quê diferencia informação relevante de fofoca? Como diferenciar segredos legítimos de mentiras torpes? Ultimamente essas perguntas rondam o WikiLeaks.

O site, que coleciona prêmios, conta com colaboradores que vão de repórteres experientes até dissidentes de governos totalitários, promovendo o vazamento de informações sigilosas e trazendo à luz fatos que governos dos mais variados naipes gostariam de manter ocultos: vídeos de um helicóptero americano matando civis no Iraque; relatório sobre a política de extermínio no Quênia; dezenas de milhares de documentos sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, o manual da prisão de Guantánamo etc. É louvável em sua propagação da transparência e honestidade.

No entanto, seu crescimento e sucesso vem sendo acompanhado de dois riscos: descambar para a fofoca e colocar pessoas e causas em risco real.

A divulgação de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, é – a meu ver – fofoca inútil. Saber que Hillary Clinton perguntou se Cristina Kirchner toma remédios psiquiátricos; que o Rio de Janeiro teme ser alvo terrorista nas Olimpíadas de 2016; ou mesmo que o Itamaraty é antiamericano me parecem intrigas tão comezinhas quando as conversas de pé-de-ouvido de qualquer reality show. Nas relações humanas, segredos e omissões são fundamentais, pois algumas mentiras bobas muitas vezes ajudam a manter os vínculos que a plena sinceridade destruiria.

Mais que isso, contudo, há verdades que, gostemos ou não, vindo à luz são prejudiciais. Esconder a tortura a prisioneiros é sempre ruim, mas não revelar que determinada autoridade está desaparecida, nem sempre. A literatura sobre o tema classifica algumas inverdades como “mentiras azuis” (em alusão à farda de policiais que mentiram para garantir o sucesso de uma ação do governo contra o crime). E o mais interessante é que, desde crianças, desenvolvemos progressivamente a noção de que mentir de forma egoísta é errado, mas de forma altruísta, em prol do grupo, pode ser aceitável. Em um estudo com crianças de 7, 9 e 11 anos que poderiam mentir ou falar a verdade, prejudicando toda sua classe de colegas, psicólogos verificaram 7.2, 16.7 e 29.7% delas optaram por mentir em prol do grupo, respectivamente; de forma paralela, conforme aumenta a idade há menos aceitação para mentia em benefício próprio.

Embora a transparência seja um valor, não é um valor absoluto. O juiz Louis Brandeis estava certo ao dizer que “A luz do sol é o melhor desinfetante”, mas vale lembrar que a mesma luz, em excesso ou no lugar errado, pode causar graves prejuízos.

ResearchBlogging.org Fu, G., Evans, A., Wang, L., & Lee, K. (2008). Lying in the name of the collective good: a developmental study Developmental Science, 11 (4), 495-503 DOI: 10.1111/j.1467-7687.2008.00695.x

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Written by Daniel M Barros

06/12/2010 at 4:13 PM

Publicado em Uncategorized

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Uma resposta

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  1. A transparência é ou deve ser um valor absoluto.

    Caban

    08/12/2010 at 7:13 AM


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